9 de Novembro de 2009

Ryuichi Sakamoto


8 de Novembro de 2009

O COLAPSO DO MATERIALISMO



A prestigiada Edge Foundation, que promove a investigação e a discussão de temas intelectuais, filosóficos, artisticos e literários, lança todos os anos uma questão a alguns dos mais eminentes pensadores das mais diversas áreas.

Para 2009 a questão foi a seguinte:

"O Que Mudará Tudo? - Espera viver para ver que ideias científicas e desenvolvimentos?"


De todas as respostas, decidimos destacar a resposta do biólogo Rupert Sheldrake. É um texto muito interessante e que, a nosso entender, toca num dos pontos fundamentais na mudança de paradigma que estamos a começar a assistir.

Deixamos aqui uma tradução livre para português, que fizemos das partes mais significativas desse mesmo texto. Pedimos desculpa por eventuais incorrecções.

***

“O Colapso do Crédito para o Materialismo”


“O colapso do crédito acontece por causa do crédito excessivo e de excessivas dividas incobráveis. Crédito é literalmente crença, do Latin credo, “eu creio”. Uma vez a confiança abalada, a perda de confiança é auto-reforçada. O jogo muda. Algo de similar está a acontecer com o materialismo. Desde o século XIX que os seus defensores têm prometido que a ciência explicará tudo em termos de física e química, que a ciência demonstrará que Deus é um delírio dentro das mentes humanas e, logo, em cérebros humanos, e provará que os cérebros não são nada mais do que máquinas complexas.

O Materialismo é mantido pela fé de que a ciência vai resgatar as suas promessas, tornando as suas crenças em factos. Entretanto, eles vivem a crédito. O filósofo da Ciência Sir Karl Popper descrevia esta fé como “materialismo promissório” porque está dependente de notas promissórias por descobertas ainda não realizadas. Para lá de todas as conquistas da ciência e tecnologia, ele está a enfrentar um colapso do crédito sem precedentes.

Em 1963, quando eu estudava bioquímica em Cambridge fui convidado, juntamente com alguns dos meus colegas de turma, para uma série de encontros privados com Francis Crick e Sydney Brenner no King´s Collage. Eles tinham acabado de desvelar o código genético. Ambos eram ardentes materialistas. Eles explicaram que haviam dois principais problemas por resolver em biologia: desenvolvimento e consciência. Eles não tinham sido solucionados porque as pessoas que trabalhavam sobre eles não eram biologistas moleculares – nem muito brilhantes. Crick e Brenner iriam descobrir as respostas em 10 ou talvez em 20 anos. Brenner ficaria com o desenvolvimento e Crick com a consciência. Eles convidaram-nos para nos juntarmos a eles.

Ambos tentaram o seu melhor. Brenner foi galardoado com o Prémio Nobel em 2002 pelo seu trabalho no desenvolvimento do verme nematóide Caenorhabdytis. Crick corrigiu o manuscrito da sua tese final sobre o cérebro antes de morrer em 2004. No seu funeral, o seu filho Michael disse que o que o fez vibrar não foi o desejo de ser famoso, rico ou popular, mas “para martelar o último prego no caixão do vitalismo.”

Ele falhou. E o mesmo aconteceu com Brenner. Os problemas do desenvolvimento e da consciência permanecem por resolver. Muitos pormenores foram descobertos, dezenas de genomas foram sequenciados, e os exames ao cérebro são cada vez mais precisos. Mas continua a não haver qualquer prova de que vida e mente possam ser explicadas somente pela física e a química.

A proposição fundamental do materialismo é que a matéria é a única realidade. Logo, a consciência nada mais é do que actividade cerebral. No entanto, entre muitos investigadores das neurociencias e dos estudos da consciência não existe consenso. Prestigiados jornais como o Behavioural and Brain Sciences e o Journal of Consciousness Studies publicam inúmeros artigos que revelam problemas profundos com a doutrina materialista. (…)

Em biologia e psicologia o nível de crédito do materialismo está em queda acentuada. Podem os físicos injectar novo capital? Alguns materialistas preferem chamar-se a si próprios de fisicalistas, para enfatizar que as suas esperanças dependem da física moderna e não em teorias da matéria do século XIX. Mas o nível de crédito do fisicalismo tem sido reduzido pela própria física, por quatro razões.

Primeiro, alguns físicos argumentam que a mecânica quântica não pode ser formulada sem levar em consideração as mentes dos observadores, logo as mentes não podem ser reduzidas a física, porque física pressupõe mentes.

Segundo, as mais ambiciosas teorias unificadas da realidade, teorias M e das supercordas, com 10 e 11 dimensões respectivamente, levam completamente a ciência para um novo território. Elas são fundações bastante instáveis para o materialismo, fisicalismo ou qualquer outro sistema de crença pré-estabelecido. Elas apontam para algo novo.

Terceiro, os tipos conhecidos de matéria e energia constituem apenas 4% do universo. O resto consiste em matéria negra e energia negra. A natureza de 96% da realidade é literalmente obscura [aos sentidos físicos e aos aparelhos existentes].

Quarto, o princípio cosmológico antrópico afirma que se as leis e as constantes da natureza tivessem sido ligeiramente diferentes no momento do Big Bang, a vida biológica nunca poderia ter emergido, e então nós não estaríamos aqui a pensar sobre isto. (…)

Aqui na Terra estamos enfrentando alterações climáticas, grande incerteza económica e cortes no financiamento da ciência. A confiança no materialismo está a ser drenada para longe. Os seus lideres, como os bancos centrais, continuam a emitir notas promissórias, mas perderam a sua credibilidade como o dogma central da ciência. Muitos cientistas já não querem estar 100% investidos nele.

O colapso do crédito materialista altera tudo. À medida que a ciência fica livre desta ideologia do século XIX, novas perspectivas e possibilidades surgirão, não só para a ciência, mas para outras áreas da nossa cultura que são dominadas pelo materialismo.

E abandonando a pretensão que as derradeiras respostas já são conhecidas as ciências serão livres – e mais divertidas.”

Rupert Sheldrake.

7 de Novembro de 2009

A bola que pode mudar o mundo...!

Há um bilhão de pessoas sem-abrigo que vivem hoje, em nosso mundo.
The Homeless World Cup, com sede em Edimburgo, na Escócia, é responsável pelo desenvolvimento do torneio de futebol reconhecido internacionalmente, que se realiza anualmente, e cujas equipas são formadas por pessoas com graves problemas sociais.
The Homeless World Cup apoia projectos futebolísticos em mais de 60 países, trabalhando com mais de 25.000 sem-abrigo e pessoas excluídas ao longo do ano que, uma vez na vida, têm a oportunidade de representar o seu país (apesar de tudo!) e mudar as suas vidas para sempre.
Verificou-se que, 73% dos jogadores conseguiram mudar as suas vidas para melhor, por se livrarem das drogas e do álcool, movendo-se em empregos, educação, lares, formação, reunindo-se com as famílias e até mesmo tornando-se jogadores e treinadores para o Pro ou semi-equipas de futebol profissional.
O impacto desta iniciativa é consistente e significativo de ano para ano e inclui apoios da UEFA, Nike, ONU, Manchester United, Real Madrid, o embaixador Eric Cantona e jogadores internacionais de futebol, Didier Drogba e Rio Ferdinand.
The Homeless World Cup está cheio de jogadores com coragem, garra e determinação.

Homeless World Cup, MILAN 2009 - The Final from Jan-Paul Bednarz on Vimeo.


Selecção Nacional VICE-CAMPEÃ MUNDIAL DE FUTEBOL DE RUA
A Selecção Portuguesa sagrou-se vice-campeã do Mundo de Futebol de Rua (HWC’09 – Milan) que decorreu em Milão entre os dias 6 a 13 de Setembro. A melhor classificação de sempre da equipa nacional nesta competição.
Depois da excelente prestação de Portugal na primeira fase, onde goleou os cinco adversários do seu grupo, Alemanha, Austrália, Canadá, Malawi e Bélgica, a Selecção Portuguesa integrou o Grupo D com a Hungria, Roménia, França, Inglaterra e Ucrânia.
Na terceira fase, venceu o Gana nos quartos-de-final e o Brasil nas semi-finais, tendo disputado a final com a Ucrânia onde perdeu (5-4) a 20 segundos do final da partida através de um penalti.
A 7ª edição do Campeonato do Mundo de Futebol de Rua contou com a participação de 48 países cujas equipas são compostas por jovens em situação de sem-abrigo e pobreza extrema.

6 de Novembro de 2009

Conhecimento e Ignorância



“ (...) É diferente ver o homem um animal topo de gama,  ou um ser Divino, e que os Reinos evoluem separadamente.

É diferente saber que um dia se alcançará a perfeição de Buddha ou Cristo, ou o fim é o cemitério.

É diferente saber que o Universo é regido por Leis fixas e imutáveis, ou por Acasos, milagres e revelações.

É diferente saber que todas as transformações são operadas por nós, ou estar à espera de um deus inexistente, feito à nossa falsa imagem.

É diferente saber que existem relações fixas entre causas e efeitos e tudo o que fizermos implica um efeito qualitativa e quantitativamente idêntico, uma trama gigantesca de forças, onde todos interferimos com todos, ou andar de joelhos a invocar perdões sobre faltas.

É diferente saber que todas as religiões são rigorosas,  [quando]  entendidas no original, e todas se fundam em Sofia  [Sabedoria],  a Ciência das Causas e Efeitos, do que as tomar por mensagens, revelações, ritos sociais, vagos, subjectivistas e falsos. (...)

É diferente Conhecer e Saber ou confrontar-se com os Mestres em iluminações ´de fuga`, explosões emocionais delirantes, morrer antes de ter feito em si alguma coisa boa e persistente pela humanidade.

É diferente conhecer e saber, os pólos de Sofia e Teo  [na Árvore da Vida],  viver de modo humano, não isolar a alma natural da alma humana e espiritual, no Mundo Espiritual.

É diferente ter um caminho difícil que os Mestres mais experimentados sistematizaram, ou nenhum caminho e negar à Humanidade essa experiência, lá por estar na moda a libertação evasiva, não cientifica, e o horror ao Mestre. (...)"

HAC
In, Portugal Teosófico, n.77, 2000, STP, Lisboa.

5 de Novembro de 2009

Expectativas “Mágicas” Para 2012 Não Têm Base na Tradição


Abundam pela Internet centenas de textos sobre uma suposta profecia Maia que aponta a data "fatídica" de 2012 para o acontecimento de um enorme cataclismo. Recentemente, a esta onda de histeria juntou-se a publicidade para um filme de Hollywood que estreará durante a próxima semana.


Gostaríamos de aproveitar esta oportunidade para ajudar a desfazer os muitos equívocos que povoam a mente de muitas pessoas bem intencionadas.


Reproduzimos em seguida um texto sobre este tema do boletim O TEOSOFISTA, Março de 2009, editado pelo website www.filosofiaesoterica.com.


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Expectativas “Mágicas” Para 2012 Não Têm Base na Tradição
Para Entender a Chamada Profecia Maya



O mundo não vai acabar em dezembro de 2012. Não há verdade nas previsões atribuídas a um Calendário Maya, segundo as quais uma grande catástrofe terminará o mundo tal como o conhecemos, às vésperas do Natal daquele ano. Mas a profecia chama de certo modo atenção para o tema de fundo, que é a inegável necessidade de uma forte mudança de rumo no atual processo civilizatório.



Embora a data não deva ser levada a sério, o ano de 2012 também pode ser visto como um indicativo simbólico da verdadeira transição, que é gradual e complexa, demora séculos, e merece ser investigada como tal.



Desde os primeiros tempos do cristianismo, marcar data e hora para o apocalipse tem sido uma atividade constante, tradicional, e em alguns casos economicamente rentável. Marcar hora para o final do mundo vem sendo uma ilusão auto-renovável, e também um modo prático de chamar atenção do público, pelo menos até a chegada da “data fatídica”.



É oportuno esclarecer, desde já, que não há qualquer menção ao ano de 2012 na tradição Maya em si mesma. Tampouco seria correto exagerarmos a sabedoria da civilização maya, da América Central. A visão do ano de 2012 como momento de alguma súbita transformação mundial resulta das especulações pessoais do pensador José Arguelles, feitas nas últimas décadas do século 20 e possivelmente baseadas em alguns dados astrológicos. Basta investigar as origens do suposto “calendário maya” apontando para 2012, para ver que a única fonte destas supostas informações é Arguelles. Também é fácil perceber que as profecias são de um conteúdo simples e ingênuo.[1] Depois de fazer uma idealização fantasiosa da cultura maya, Arguelles atribuiu a ela as suas próprias profecias. Seguidores de Arguelles, seguramente com boas intenções, continuam aprimorando o trabalho de produzir e lançar profecias de curto prazo, imaginativas mas sem conteúdo durável. Elas servem no máximo como um alerta geral no sentido de que “algo de importante está acontecendo com nossa civilização”.



É verdade que vivemos uma transição mundial complexa e importante. Ela tem fortes dimensões culturais, políticas, militares, econômicas, ecológicas e espirituais. É possível que ocorram grandes transformações, inclusive climáticas e geológicas, nos próximos anos e décadas. Podemos dizer que tais transformações já começaram. No entanto, a marcação de uma data única para acontecimentos extraordinários simplifica o processo indevidamente e tende a colocar os cidadãos na posição de espectadores diante do “espetáculo do fim do mundo”, o que é inteiramente equivocado.



Não há nem pode haver espectadores na atual transição planetária, que é na verdade um despertar em escala global. Os pensamentos e as ações de cada ser humano fazem parte da grande força resultante que determina a qualidade e o modo exato da mudança. Deixando de lado a busca do espetáculo externo, devemos assumir nossas responsabilidades pessoais pela transformação e cultivar a arte de agir corretamente, tanto no plano individual como no plano coletivo.



A marcação de uma data precisa e única para o “fim do mundo” ou para qualquer transição mundial súbita resulta da ansiedade pessoal de pessoas desinformadas. A observação isenta da evolução humana confirma a tese da filosofia esotérica: as transições de era ocorrem gradualmente e ao longo de séculos. O tema dos ciclos de evolução merece uma investigação calma e atenta. Para isso, a filosofia teosófica original possui uma vasta literatura de grande valor, algo que todo leitor pode e deve verificar por si mesmo.



Segundo a teosofia, os limites numerológicos entre as eras, assim como o início e o final dos períodos de transição, são dados matemáticos abstratos. Em torno destes limites, desdobra-se uma transição cármica que possui um ritmo próprio. As eras e ciclos são como a escada e o corrimão que sinalizam o caminho e dão o rumo para que a evolução faça a subida até novos patamares de consciência. Escada e corrimão – o plano divino da evolução – dão as condições e o apoio necessários. Mas não predeterminam exatamente de que modo o peregrino, a humanidade, avançará pelos degraus. Vejamos mais algumas poucas informações a respeito, em sete pontos numerados.



1) Em sua obra “A Doutrina Secreta”, H. P. Blavatsky afirma que os períodos de transição entre uma era e outra correspondem a dez por cento da duração da era.



2) Em outro contexto, H.P.B. escreveu que o início da era de Aquário ocorre no ano de 1900. A duração da era de Peixes e da era de Aquário é de 2.155 anos, segundo a filosofia esotérica. Calculando os dez por cento, podemos deduzir que há um período de transição de 215 anos e meio entre as duas eras, que deve ser dividido em duas metades, uma anterior e a outra posterior ao ano de 1900.



3) A metade exata de 215 anos e meio fica entre 107 e 108 anos, quase chegando a 108. O número 107 corresponde a um dos ciclos ocultos mencionados nas “Cartas dos Mahatmas”. O número 108, por sua vez, é sagrado na Índia. Há 108 contas no rosário hindu e budista. Há 108 Upanixades. Atribui-se ao número 108 um significado astronômico ligado à lua. Os budistas veneram 108 Arhats ou sábios. O número 108 tem importância especial para a Cabala e a tradição hermética ocidental. [2]



4) Retrocedendo 108 anos a partir do ano de 1900, encontramos o ano de 1792. Naquele momento a revolução francesa estava em sua plenitude, e a revolução norte-americana de 1776 havia-se consolidado havia pouco. A transição para a era de Aquário começa com os ideais libertários e fraternos daquelas duas revoluções, e também, sem dúvida, com o humanismo iluminado do filósofo Immanuel Kant, no mundo germânico. No Brasil, cabe lembrar, o herói e visionário aquariano da independência nacional, alferes Tiradentes, é morto em 1792.



5) Por outro lado, se somarmos 108 ao ano de 1900, teremos o ano de 2008, um ano em que o despertar da consciência planetária já estava ocorrendo em grande escala. Portanto, do ponto de vista esotérico, a transição foi completamente terminada e estamos em plena era de Aquário. Faltam agora alguns acertos cármicos no plano visível, que podem ser mais ou menos difíceis.[3]



6) É certo que não há um “momento único de transição total”. Nem existirá necessariamente uma grande catástrofe súbita. Catástrofes globais não estão descartadas entre 2009 e 2025. Mas a marcação de datas para um suposto “momento único” não desperta nem esclarece pessoa alguma. Apenas cria uma curiosidade ansiosa sobre fatos espetaculares, mas imaginários, e reduz as pessoas à condição de espectadores passivos.



7) Na verdade, é através da confiança no futuro de longo prazo, e do calmo bom senso, que despertamos para a ação correta no presente. O momento histórico que vai de 2008 a 2025 estimula o despertar de cidadãos planetários ativos, que vivenciem um sentimento lúcido de co-responsabilidade pela transição mundial. Necessitamos de cidadãos dotados de uma visão de longo prazo e construtiva. A nova consciência planetária deve ser realista e capaz de atuar no mundo, mas deve estar ligada à prática do estudo e da contemplação das grandes verdades universais. E a nova consciência não pode ser separada do exercício diário do bom senso.



NOTAS:



[1] Veja as profecias equivocadas para o final da década de 1990, no livro intitulado “2012 – A Profecia Maya”, de Alberto Beuttenmuller (Ed. Ground, SP, 1996, 286 pp.). Examine também a nota publicada a respeito na revista “Veja” de 4 de fevereiro de 2009, pp. 90-91.



[2] “Espiritualidade Através dos Números”, de Georg Feuerstein, Ed. Siciliano, 218 pp., 1994, pp. 194-195.



[3] Para um enfoque teosófico mais amplo da atual transição mundial em relação aos ciclos e eras da evolução humana, veja o artigo “The Hundred-Year Cycle and the Twilight of the Pisces Age” de Carlos Cardoso Aveline, publicado na revista internacional “FOHAT”, Canadá, edição de inverno de 2008-2009 (verão de 2008-2009 no Brasil), pp. 82 e seguintes. O texto também está publicado na seção “Climate Change and the New Planetary Cycle”, do website www.filosofiaesotérica.com , sob o título “The Twilight of the Pisces Age”.

3 de Novembro de 2009

Al Gore e Alterações Climáticas



Al Gore acaba de lançar um novo livro com o título "Our Choise" (A Nossa Escolha).



Veja também a mais recente entrevista de Al Gore falando sobre o seu novo livro e o estado actual da luta contra as alterações climáticas:

2 de Novembro de 2009

Slow Life - Um texto escrito por um brasileiro que vive na Europa


'Já vai para 18 anos que estou aqui na Volvo, uma empresa sueca. Trabalhar com eles é uma convivência, no mínimo, interessante. Qualquer projeto aqui demora 2 anos para se concretizar, mesmo que a idéia seja brilhante e simples. É regra. Então, nos processos globais, nós (brasileiros, americanos, australianos, asiáticos) ficamos aflitos por resultados imediatos, uma ansiedade generalizada.

Porém, nosso senso de urgência não surte qualquer efeito neste prazo. Os suecos discutem, discutem, fazem 'n' reuniões, ponderações. E trabalham num esquema bem mais slow down. O pior é constatar que, no final, acaba sempre dando certo no tempo deles, com a maturidade da tecnologia e da necessidade: bem pouco se perde aqui.

E vejo assim:
1. O país é do tamanho de São Paulo;
2. O país tem 2 milhões de habitantes;
3. Sua maior cidade, Estocolmo, tem 500.000 habitantes (compare com Curitiba, que tem 2 milhões);
4. Empresas de capital sueco: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare...

Nada mal, não?

Para ter uma idéia, a Volvo fabrica os motores propulsores para os foguetes da NASA.

Digo para os demais nestes nossos grupos globais: os suecos podem estar errados, mas são eles que pagam nossos salários. Entretanto, vale salientar que não conheço um povo, como povo mesmo, que tenha mais cultura coletiva do que eles. Vou contar para vocês uma breve só para dar noção.

A primeira vez que fui para lá, em 90, um dos colegas suecos me pegava no hotel toda manhã. Era setembro, frio, leve nevasca. Chegávamos cedo na Volvo e ele estacionava o carro bem longe da porta de entrada (são 2.000 funcionários de carro). No primeiro dia não disse nada, no segundo, no terceiro... Depois, com um pouco mais de intimidade, numa manhã perguntei: 'Você tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo, o estacionamento vazio e você deixa o carro lá no final.'Ele me respondeu simples assim: 'É que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar – quem chegar mais tarde já vai estar atrasado, melhor que fique mais perto da porta. Você não acha?'

Olha a minha cara! Ainda bem que tive esta na primeira. Deu para rever bastante os meus conceitos. Há um grande movimento na Europa hoje, chamado slow food. A Slow Food International Association - cujo símbolo é um caracol, tem sua base na Itália (o site, é muito interessante. Veja-o).

O que o movimento Slow Food prega é que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, 'curtindo' seu preparo, no convívio com a família, com amigos, sem pressa e com qualidade. A idéia é a de se contrapor ao espírito do fast food e o que ele representa como estilo de vida em que o americano endeusificou.

A surpresa, porém, é que esse movimento do slow food está servindo de base para um movimento mais amplo chamado Slow Europe, como salientou a revista Business Week em sua última edição européia.

A base de tudo está no questionamento da 'pressa' e da 'loucura' gerada pela globalização, pelo apelo à 'quantidade do ter' em contraposição à qualidade de vida ou à 'qualidade do ser'.

Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem menos horas (35 horas por semana) são mais produtivos que seus colegas americanos ou ingleses. E os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer nada menos que 20%. Essa chamada slow atitude está chamando a atenção até dos americanos, apologistas do fast (rápido) e do do it now (faça já). Portanto, essa 'atitude sem-pressa' não significa fazer menos, nem menor produtividade. Significa, sim, fazer as coisas e trabalhar com mais 'qualidade' e 'produtividade', com maior perfeição, atenção aos detalhes e com menos estresse.

Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do 'local', presente e concreto em contraposição ao 'global' - indefinido e anônimo. Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé.

Significa um ambiente de trabalho menos coercitivo, mais alegre, mais 'leve' e, portanto, mais produtivo onde seres humanos, felizes, fazem com prazer, o que sabem fazer de melhor. Gostaria de que você pensasse um pouco sobre isso.

Será que os velhos ditados 'devagar se vai ao longe' ou ainda 'a pressa é inimiga da perfeição' não merecem novamente nossa atenção nestes tempos de desenfreada loucura? Será que nossas empresas não deveriam também pensar em programas sérios de “qualidade sem-pressa' até para aumentar a produtividade e qualidade de nossos produtos e serviços sem a necessária perda da 'qualidade do ser'?

No filme Perfume de Mulher há uma cena inesquecível, em que um personagem cego, vivido por Al Pacino, tira uma moça para dançar e ela responde: 'Não posso, porque meu noivo vai chegar em poucos minutos.' 'Mas em um momento se vive uma vida', responde ele, conduzindo-a num passo de tango. E esta pequena cena é o momento mais bonito do filme.

Algumas pessoas vivem correndo atrás do tempo, mas parece que só alcançam quando morrem enfartados, ou algo assim. Para outros, o tempo demora a passar; ficam ansiosos com o futuro e se esquecem de viver o presente, que é o único tempo que existe. Tempo todo mundo tem, por igual. Ninguém tem mais nem menos que 24 horas por dia. A diferença é o que cada um faz do seu tempo.

Precisamos saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon, 'A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro'.

Parabéns por ter lido até o final. Muitos não lerão esta mensagem até o final, porque não podem 'perder' o seu tempo neste mundo globalizado.

Pense e reflita, até que ponto vale a pena deixar de curtir sua família. De ficar com a pessoa amada, ir pescar no fim de semana. Poderá ser tarde demais.

Celso Zymon

BrasilWiki Online – 23/11/2006

Texto retirado do site http://www.filoterapia.com/

BURROS DE CARGA


Há muitos homens que pensam estar a comprar prazer
Quando, na verdade, estão apenas a vender-se a si próprios
Como escravos.

Benjamim Franklin



Somos nós burros de carga. Sim, nós, que temos às nossas costas esta estúpida rede de compromissos, alienações, deveres, obrigações, taxas, impostos, papeladas, horários e tantos outros pesos e pretensas posses que constituem a nossa carga; e que voluntariamente., numa escolha que não faria nenhum burro (por ter maior sensatez), entrámos neste labirinto chamado civilização, incluindo o mundo dos bancos, das finanças, das empresas volvidas em novas divindades, das sempre crescentes necessidades (dependências) que inventamos.



Tudo isto nos cai em cima, num cenário a que se chama crise, e que haverá sempre de voltar, com novas faces, se persistirmos em tentar extinguir esse incêndio justamente com o combustível que o alimenta: a ilusão da posse, da riqueza, do “meu”; as idolatrias relativamente às empresas, aos bancos, aos lucros; a vaidade com a esperteza negocial, com o brilho da carreira profissional, com a correria desenfreada pelo sucesso.



O mundo está cheio de coisas que não interessam nada, e somos capazes de consumir a vida, e de dar cabo dela, por causa dessas mesmas coisas. Afogamo-nos carregados de “tesouros”…



José Manuel Anacleto



Texto retirado da revista BIOSOFIA, n.º 35, Verão 2009, CLUC, Lisboa.

31 de Outubro de 2009

"DESEJO DE ETERNIDADE"

Reproduzimos aqui uma entrevista concedida por José Manuel Anacleto, investigador e editor da excelente revista BIOSOFIA, a Gabriela Oliveira.

A entrevista foi originalmente publicada na “Notícias Magazine”*, em 2005, e mais tarde foi também divulgada no blog Aqui&Agora (de onde retirámos o texto que se segue).

***

"Este investigador formou-se em Direito e estuda há mais de 20 anos as grandes tradições filosóficas e religiosas do mundo. Não se considera crente, nem seguidor de nenhuma religião em particular e, no entanto, admite ser «intimamente religioso, tão cristão, quanto budista, hinduísta, tauista, zoroastrista...». Preside o Centro Lusitano de Unificação Cultural e é autor dos livros «Espírito: Ciência ou Ilusão?» e «Transcendência ou Imanência de Deus», entre outros títulos

Entrevista Gabriela Oliveira

Apesar de todas as diferenças, algo parece ser universal no ser humano - a vontade de existir para além da morte. Uma certeza que todas as religiões postulam e que nem a filosofia nem a ciência conseguem negar. Todas afirmam «uma plenitude», garante José Manuel Anacleto, «seja da matéria, seja do espírito, seja, em suma, do ser», que nos abre as portas para a eternidade. Antes de nos interrogarmos se a morte é o fim, este investigador repõe a dúvida dos antigos gregos, egípcios e hindus: será que tivemos mesmo um início? Seremos feitos da «substância» da eternidade? Ponha de parte os preconceitos e pondere as explicações...

A ciência não responde à grande interrogação da morte. É por isso que procuramos a religião? Em busca das respostas que não encontramos?

É preciso ter em conta que a ciência, tal como a entendemos, tem 4-5 séculos, é uma aventura demasiado recente na história da humanidade e a busca religiosa é muitíssimo mais antiga e, portanto, não surgiu como uma procura para os vazios que a ciência moderna não preenche. Para quem assume uma postura mais reflexiva, o questionamento religioso nasce do deslumbramento perante a grandeza e o mistério do universo. A interrogação basilar - porque é que há o universo? e porque não existe o nada? - tem ocupado as mentes mais reflectidas de todos os tempos. Mas para o comum das pessoas, o questionamento é outro: até que ponto posso ser beneficiado pelas forças superiores, até que ponto esses poderes podem olhar-me de uma forma que me favoreça.

Agora e depois da morte...

Nesta nossa sociedade moderna e consumista, a maior parte das pessoas, pelo menos até chegar a uma idade mais avançada, raramente se interroga sobre a morte, é cansativo e demasiado incómodo pensar nisso. A religião é, sobretudo, encarada como uma espécie de seguro ou de contrato com vagos e hipotéticos poderes superiores, em que a manifestação de adesão a determinada igreja e o cumprimento de práticas mínimas, trariam uma protecção para as coisas imediatas da vida quotidiana. É a tentativa de «comércio» com o sagrado.

Habitualmente «herdamos» a religião da nossa família. Nem sempre escolhemos as nossas convicções religiosas?

A adesão a uma religião em particular, na grande maioria dos casos, não radica de uma escolha consciente e deliberada. Por isso em Portugal cerca de 90% das pessoas afirmam ser católicas, na Argélia quase 100% segue o Islão ou na Índia a grande maioria segue o que impropriamente chamamos de hinduísmo (e que eles chamam Sanatana Dharma - a religião eterna). A nossa apetência religiosa, não sendo reflectida, é imediatamente canalizada para a tradição predominante no país, na região ou no meio sociofamiliar em que nos inserimos.

Mas para muitas pessoas a busca religiosa não tem sentido.

Há quem se defina como ateu ou agnóstico – duas posições distintas, apesar de muitas vezes serem confundidas. O agnóstico autêntico questiona intensamente a natureza do ser e do universo e conclui que não tem certezas. O que é muito diferente das crenças pela positiva ou pela negativa, das pessoas que dizem eu acredito sem saberem muito bem no quê ou daquelas que dizem eu não acredito, desconhecendo também a que se referem quando afirmam não acreditar. Muitos ateus acabam por ser crentes, pela negativa.

Ao longo dos tempos, em todas as culturas, encontramos o culto do divino e dos mortos. Não aceitamos ser mortais?

Parece que não. Há um «sentimento inato» no ser humano que recusa aceitar a ideia de um fim. Se repararmos bem, nós também não temos a ideia de um início, a nossa existência é um dado adquirido. Não nos lembramos do primeiro momento, do primeiro pensamento, da primeira sensação, não temos qualquer memória da primeira vez, do primeiro instante... Temos a noção de que a existência é algo de sempre e para sempre. A religiosidade ocidental afirma que somos eternos, mas apenas num dos sentidos, isto é, sustenta que não teremos fim. Defende, no entanto, que tivemos um início, visto que somos obra de uma divindade criadora. Mas esta ideia de criação não resiste a um exame mais profundo. Nas filosofias mais antigas e profundas do oriente não há tal coisa como um ser criador e um ser criado - todos nós partilhamos um absoluto ou divino e não teremos fim precisamente porque não tivemos início. Essa será a verdadeira eternidade. Encontramos esta concepção, por exemplo, na Vedanta e no Advaitismo na Índia, e de um modo geral, em todo o pensamento antigo, dito pagão.

Queremos sempre deixar marcas da nossa existência, através de um filho, de uma obra... Temos pavor ao nada?

A ideia do nada é insustentável, por mais que queiramos, não conseguimos imaginar o nada. Se tentarmos «tirar o mundo ao mundo», como dizia Fernando Pessoa, algo parece sempre restar, nem que seja um espaço vazio e isso já é alguma coisa. Não pode haver um nada absoluto. E do ponto de vista individual, a noção de nada não só de algum modo nos horroriza, como nos parece inverosímil. A nossa existência é um contínuo, em que não há momentos de vazio ou de nada. Daí a nossa dificuldade em aceitar a morte como um salto para o vácuo.

Do ponto de vista da ciência, continuamos a ser matéria em transformação... «Nada se perde, tudo se transforma», diz a famosa lei da física.

A espiritualidade mais profunda e a ciência, mesmo a mais materialista, afirmam uma plenitude que perdura – seja da matéria, no caso da ciência, seja do espírito, no caso dos que têm uma perspectiva espiritualista, seja do ser (que é simultaneamente espírito e substância), na perspectiva da antiga tradição que perpassa todas as grandes religiões e filosofias. Portanto, não há fim de um ponto de vista espiritualista, como não há fim do ponto de vista materialista, e ambos à sua maneira afirmam a eternidade de algo.

A mesma raiz?

As religiões apontam caminhos diferentes para o além morte. Há algum trilho comum?

Estudos comparativos mostram que há uma base comum a todas as grandes religiões e tradições filosóficas. Se as situarmos historicamente, podemos ver como vão surgindo desdobradamente, umas de dentro de outras, com uma continuidade entre si e não como revelações únicas, que nada tenham a ver com o que está para trás. O problema é que durante séculos olhámos para o pensamento antigo e para as outras civilizações com os preconcebidos do Cristianismo, havendo graves distorções, por exemplo, na tradução de textos antigos, pondo povos que não tinham uma concepção monoteísta a falar de uma criação à maneira cristã... Mas se o cristianismo tem 2000 anos, o budismo tem 2500 anos, o tauismo outros tantos e o hinduísmo muitos milhares de anos.

As concepções orientais são muito diferentes das ocidentais. Em que aspectos?

O pensamento oriental está imbuído da ideia das vidas sucessivas. Cada morte é um momento importante mas é apenas um de muitos momentos, por haver uma pluralidade de existências. Não é assim no cristianismo, no islamismo e, até certo ponto, no judaísmo, em que se entende que temos apenas uma existência neste mundo e, portanto, a morte, quer ocorra aos 70 anos, quer ocorra segundos depois de termos nascido, é um momento único e radical, a partir do qual ficará determinada toda a nossa existência na eternidade. Se porventura, vivermos apenas 15 anos, esses 15 anos determinarão se teremos uma existência eterna de felicidade ou, pelo contrário, de condenação ao sofrimento ou, no mínimo, de privação da alegria. A hipótese reencarnacionista concede não uma mas inúmeras oportunidades de aperfeiçoamento humano.

Hipótese estranha ou sem sentido para muitas pessoas.

Ainda a olhamos com estranheza mas a ideia da reencarnação tem vindo a ser progressivamente encarada como plausível no ocidente. Se há cem anos atrás eram muito poucos os que davam atenção ao assunto, hoje já não é assim. A ideia popularizou-se embora de uma maneira confusa - encontramos as concepções mais díspares e tantas vezes insustentáveis sobre a reencarnação.

Como a de voltarmos à Terra no corpo de um animal...

Essa é uma concepção equivocada. Podemos «animalizarmo-nos» no sentido psicológico mas não no sentido literal e formal da palavra - isso foi muito bem explicado pelo grande filósofo neoplatónico Proclo, ao comentar um texto de Platão. Os antigos, como ainda hoje os orientais, sempre utilizaram uma linguagem muito simbólica, rica em imagens. Uma interpretação literal entraria em contradição com as leis da evolução e da hierarquia, que são basilares.

A ideia da reencarnação está presente em tudo?

Olhando à nossa volta, tudo é cíclico. É curioso que em obras de divulgação científica já se questiona se este universo, se este cosmos que conhecemos, não será apenas um numa longa série, numa sucessão de diferentes cosmos. E de facto a sucessão dos dias e das noites, dos movimentos das marés, das estações do ano, dos nossos movimentos respiratórios de inspiração e expiração... tudo isso evidencia a ideia de uma existência cíclica, que subjaz à teoria da pluralidade das existências ou reencarnação. O cristianismo nos primeiros séculos, em consonância com o pensamento da época, também considerava a hipótese da reencarnação, o que é visível em várias passagens da Bíblia. Só a partir do século VI, no 2º Concílio de Constantinopla, é que a Igreja Cristã considerou definitivamente herética esta posição ao rejeitar as célebres Teses de Orígenes. Até aí, era admitida por muitos cristãos.

Rituais de despedida

Para que servem os rituais funerários?

Podemos ver a sua importância de dois pontos de vista. Na perspectiva de quem fica, é um catalisador e, ao mesmo tempo, um meio de exorcizar o medo que a morte provoca na generalidade das pessoas. Os rituais religiosos reúnem a grande emoção suscitada por se assistir
à morte de alguém que nos é particularmente querido, balizam essa emoção e de algum modo vão sublimá-la, ao referenciarem um caminho espiritual que irá ser percorrido por quem partiu e no qual, até certo ponto, podemos intervir dirigindo-lhe orações e pensamentos favoráveis.

E na perspectiva de quem partiu?

Na cultura tibetana, no antigo Egipto e também na cultura hindu, existem obras que descrevem pormenorizadamente (e com notável similitude entre si) os passos que se sucedem a seguir à morte, e todas falam na enorme importância dos últimos pensamentos daquele que morre e do ambiente que o rodeia nesses instantes finais. A sua existência futura será, em grande medida, determinada pela qualidade dos últimos pensamentos, que representam uma síntese da qualidade de todos os pensamentos, sentimentos e acções... de uma vida que ficou para trás. Para um tibetano ou um hindu, é ainda mais penoso morrer num contexto hospitalar.

Os rituais também diferem muito consoante as religiões e tradições.

Por exemplo, os rituais hindus são muito mais complexos, as cerimónias podem demorar 12 dias, usa-se o sari branco e o costume é a cremação, o que corresponde, entre muitos outros aspectos, à sua visão relativizadora do corpo e do mundo físico. Para nós ocidentais, a morte é vista como algo pavoroso, como uma desgraça, como um mal a que não nos podemos furtar, e na prática os rituais religiosos estão sempre matizados por essa ideia do pavoroso, pelo sentimento de que algo terrível aconteceu. Pelo contrário, nos rituais hindus assistimos a uma maior serenidade e a uma certa satisfação pela libertação do mundo físico. Para os orientais, o mais terrível e sofrido dos mundos é este em que vivemos - o mundo terrestre é o verdadeiro inferno, a morte representa a libertação.

Temos condições para levar por diante todos esses rituais?

Cada vez mais, diferentes culturas religiosas convivem no mesmo espaço geográfico, em parte, devido aos fenómenos migratórios. E isso cria sérios problemas para as minorias, que muitas vezes vêem-se impossibilitadas de seguir com rigor aquilo que as suas convicções religiosas lhes determinam. O Estado deve ter uma perspectiva imparcial, criando condições para que todos se possam expressar face à morte, o que ainda não acontece no nosso país.

Há quem defenda a criação dos chamados «funerais humanistas», sem ligação a qualquer Igreja.

Essa é uma questão importantíssima. O Estado se é laico tem de ser coerente com essa laicidade. Não faz sentido que um ateu, agnóstico ou seguidor de outra religião seja praticamente forçado a estar nas capelas mortuárias da Igreja Católica. Não faz sentido que nos funerais de Estado os corpos sejam levados para espaços de uma determinada Igreja. A situação incómoda que se verificou há pouco tempo, justamente num caso desses, devido à hipotética realização de um ritual maçónico na Basílica da Estrela, é reveladora dessa contradição. Gerou-se um conflito de interesses, ambos legítimos, entre a vontade de quem morreu e o direito que assistia à Igreja de impedir rituais indesejados. É urgente criar espaços neutros onde os corpos possam repousar e os rituais possam ser preparados, de acordo com as convicções ou crenças de cada um.

O Estado pode demitir-se dessa responsabilidade?

Não deve. A omissão do Estado é perniciosa e já se arrasta há demasiado tempo. É necessário também aumentar o número de crematórios, que são ainda escassos e insuficientes. Se um indivíduo morrer no interior do país e se pretendia ser cremado, a família vai deparar-se com enormes dificuldades para realizar a sua vontade.

Incoerência

Continuamos a ser preconceituosos em relação a outras religiões e tradições?

Continuamos. Há maior tolerância, é verdade, mas continua a haver uma grande ignorância. E o preconceito nasce sempre da ignorância ou quando nos recusamos a conhecer de uma forma neutra e imparcial. Na verdade, muitas pessoas são ignorantes da própria religião que dizem professar. Por vezes, ridicularizam preceitos de religiões ou de igrejas a que não pertencem, desconhecendo por completo que são também comuns à religião que seguem. Quanto mais longe de nós está a religião em causa, maior é o preconceito e a ignorância. Se olhamos de soslaio para as igrejas cristãs protestantes, muito mais o fazemos em relação ao islamismo ou ao hinduísmo.

Temos tendência para desvalorizar as outras crenças e tradições?

Sim. Está enraizada a ideia de que “a religião é a nossa”, as outras são as outras... mais ou menos bizarras, mais ou menos duvidosas. Esta posição egocêntrica - de que o nosso modelo religioso é a medida de todas as coisas – não nos permite ter uma atitude imparcial, de tentar compreender o que subjaz a determinada afirmação, a determinado conceito ou até a determinada prática religiosa. Infelizmente, no mundo da religiosidade continua a predominar a noção de acreditar, sendo desvalorizada a noção de compreender. Mas as crenças cegas (religiosas, rácicas, políticas...) já fizeram demasiados e terríveis males ao mundo...

Podemos não ser tão tolerantes como pensamos...

Ma maior parte dos casos, temos uma tolerância negativa, uma tolerância complacente com presunções de superioridade. Achamo-nos muito bonzinhos por evitarmos rir à gargalhada perante certos costumes ou ideias que nos parecem tão disparatadas. Toleramos... mas consideramos os outros ridículos.

E a associação do islamismo ao terrorismo, é uma ideia perigosa?

Sem dúvida. É preocupante a facilidade com que se fala no terrorismo islâmico, como se fossem quase sinónimos, como se cada islâmico fosse potencialmente um terrorista. E sejamos justos, se fizermos uma história imparcial dos terrores já provocados por religiões, talvez o islamismo não ocupe o primeiro lugar. E pergunto-me se será mais aceitável o terrorismo dos exércitos supostamente civilizados que no pavor da noite descarregam os seus arsenais de destruição sobre cidades habitadas por centenas de milhares de pessoas, ou o de um indivíduo que num acto violento, sem dúvida reprovável, se faz explodir por uma causa fanática, perdendo também a sua
vida?

Curiosamente o islamismo tem muitas semelhanças com o cristianismo, mas não reclama ser representante do «único filho de Deus».

Os islâmicos sempre tiveram Jesus na mais alta consideração. O mesmo não se pode afirmar em relação aos cristãos que durante séculos identificaram Maomé com o demónio. A teologia islâmica
durante muito tempo foi bem menos sectária e feroz do que a teologia cristã. Não devemos esquecer que em determinado momento da civilização ocidental, a luz da cultura (a arte, a medicina, a arquitectura...) foi-nos trazida do Islão. Os «mouros» não eram assim tão terríveis nem demoníacos como os pintávamos.

A religião é ainda um factor discriminante?

Na prática é. As minorias, religiosas ou outras, continuam a ser olhadas de esguelha. Numa sociedade cada vez mais mediática e competitiva, os poderes instituídos estão ao serviço das maiorias, até porque essa é a lógica consumista, que é a de chegar à maioria dos consumidores. E aí, mais uma vez, o Estado deve ter uma função correctiva. Ainda encontramos com a maior facilidade numa escola ou numa repartição pública, símbolos religiosos alusivos a uma determinada igreja. Será isso correcto, tendo em conta os direitos da igualdade e da não discriminação consagrados na lei? Não me parece.

Que religião, ou religiões, teremos no futuro?

Espero que haja mais religiosidade com menos igrejismos e, sobretudo, menos sectarismos. Penso que a diminuição da crença religiosa, nomeadamente entre as faixas etárias mais jovens, levará a que no futuro a religiosidade seja mais autêntica, por ser procurada, questionada e mais fundamentada.

Caminhamos para a «globalização» também no domínio religioso?

Espero que um dia possamos assistir a uma religião universal. O que há no momento é um vislumbre do que poderá vir a ser a globalização da religiosidade. Hoje temos uma espécie de supermercado religioso – que tem sido objecto de vários estudos sociológicos – no qual as pessoas, sem uma preocupação muito séria do que é verdadeiro ou rigoroso, procuram em diferentes tipos de religiosidade aquilo que mais convém aos seus interesses imediatos. Rezam, por exemplo, orações cristãs seguidas de mantras orientais para se sentirem mais protegidas ou serem beneficiadas. É uma lógica imediatista e egoísta que, a meu ver, não é verdadeira religião.

Religião, filosofia e ciência podem ser conciliáveis?

Já o foram no passado. Grandes pensadores da Grécia antiga, como Pitágoras e Platão, eram simultaneamente filósofos, cientistas e eminentes estudiosos do sagrado. Na altura não havia qualquer dicotomia, a busca de sophia - do conhecimento integral - estava sempre presente. O drama é que se perderam as chaves e os códigos interpretativos que estão na base da ciência e das formulações teogónicas e mitológicas do mundo antigo. E perderam-se devido ao fanatismo religioso, que no século IV e seguintes, desencadeou a mais terrível perseguição e destruição contra todo o património da sabedoria, da ciência e até da arte da antiguidade, consideradas demoníacas. Foram perseguidos e aniquilados pensadores genuínos, pilhados e queimados centenas de milhares de livros que reuniam o esforço de gerações sucessivas de investigadores... Em que patamar poderia estar hoje a humanidade se ao longo dos tempos não tivesse havido tanta intolerância e fanatismo? Certamente, estaríamos bem melhor."

*Entrevista a José Manuel Anacleto "Notícias Magazine", nº683 (suplemento do Diário de Notícias/Jornal de Notícias), 26-06-2005, págs.26-32.

29 de Outubro de 2009

A Nota-Chave do Oceano Cósmico



Uma Onda Sutil 
em Meio ao Burburinho do Mundo




Joaquim Soares


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O texto a seguir é reproduzido
 do boletim eletrônico mensal


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Observando o firmamento estrelado numa noite escura, não podemos deixar de sentir a nossa pequenez diante de cenário tão grandioso e de um indecifrável mistério que nos assalta a consciência. Que poder sustém o Universo? O que é aquilo que nos dá a vida e o ser? De onde viemos? O que fazemos aqui? Para onde vamos? Afinal o que somos nós neste grande Oceano Cósmico? Estaremos sós? 

Estas são perguntas que nos assaltam em momentos de recolhimento e contemplação da prodigiosa Beleza que nos rodeia.  

Vivemos numa sociedade (que ajudamos a construir) que nos incute a crença de que a felicidade pode ser alcançada através da satisfação dos desejos, que nos quer fazer acreditar que tendo cada vez mais bens materiais, posição social e sucesso profissional, poderemos obter finalmente a paz desejada.
  
A realidade desmente todo esse gigantesco esquema de manipulação coletiva. Não só  não temos paz como continuamente geramos novas causas de infortúnio, que se somam a tantas outras que já nos atingem. Pior ainda, temos tornado a vida no planeta um autêntico inferno, em que milhões de seres humanos vivem na maior das misérias e sofrimento.  

A maquiagem social não chega a esconder a enorme infelicidade que corrompe os corações dos homens. Nos momentos de solidão, quando já ninguém está por perto, naquele encontro com nós próprios, na contemplação das coisas simples, chegamos sempre à conclusão que nada disto vale a pena. Não é isto que queremos. Uma ânsia infinita não se satisfaz com coisas finitas. Apesar de tudo, quando fechamos os sentidos às coisas externas e voltamos a atenção para o silêncio interior, pressentimos, de alguma maneira, a presença desse Inefável e Incompreensível Poder que a tudo deu origem.  

Teimamos em esquecer, mas as mesmas perguntas de sempre ressurgem em nossa mente: 'Quem somos?', 'De onde viemos?', 'Para onde vamos?'...  

Uns dizem que ninguém sabe. Outros dizem-nos que não devemos sequer perguntar. Outros ainda dizem-nos que sabem alguma coisa, mas logo que tratamos de ouvi-los chegamos à conclusão que as nossas dúvidas mais profundas, as questões verdadeiramente essenciais, permanecem sem respostas.  

Mas eis que alguém nos diz: 'Calma amigo, há quem saiba. Há quem tenha dedicado toda a sua vida a procurar as respostas. Há quem afirme que tu e eu também podemos aprender e saber, e sabendo teremos força, tranquilidade e coragem para olharmos de frente os mistérios da Vida e do Universo.'  

Há uma nota que ecoa por entre o burburinho do mundo. É uma nota tênue, quase inaudível, mas firme e constante. Nem todos ouvem, atarefados que estão com as suas ocupações imaginárias. Mas aqui e ali, mais alguns vão despertando, dirigindo a sua atenção para a nota primeira de uma canção há muito esquecida. Uma canção que fala de tempos longínquos, de outras eras, quando a humanidade ainda era uma criança, de seres sublimes que nos trouxeram um pouco do Eterno Amor-Sabedoria que a tudo dirige, de sacrifícios e vidas inteiras dedicadas a perscrutar os arcanos da natureza. 
  
E vem alguém que afirma:  

'A Doutrina Secreta é  a Sabedoria acumulada dos séculos, e a sua cosmogonia, por si só,  é o mais prodigioso e acabado dos sistemas (...). Mas tal é o poder misterioso do simbolismo que  fatos que ocuparam a atenção de gerações inumeráveis de videntes e profetas iniciados, para os coordenar, classificar e explicar, durante as assombrosas séries do progresso evolutivo, estão todos registrados em, algumas poucas páginas de signos geométricos e de símbolos. A visão cintilante daqueles Iniciados foi até ao próprio âmago da matéria, descobriu e perscrutou a alma das coisas, ali onde um observador comum e profano, por mais arguto que fosse, não teria percebido senão a tessitura externa da forma. Mas a ciência hodierna não crê na 'alma das coisas', e por isso repugnará todo o sistema da cosmogonia antiga. É inútil dizer que tal sistema não é fruto da imaginação ou fantasia de um ou mais indivíduos isolados; que se constitui dos anais ininterruptos de milhares de gerações de videntes [1],  cujas experiências cuidadosas têm concorrido para verificar e comprovar as tradições, transmitidas oralmente de uma a outra raça primitiva, acerca dos ensinamentos de seres superiores e excelsos que velaram sobre a infância da Humanidade.” [2]
 

A Doutrina Secreta é  parte dessa nota – emitida pelos 'Filhos da Sabedoria', os 'Mestres da Vida', que habitam para lá das cordilheiras nevadas dos Himalaias – com o objetivo de auxiliar o despertar da nova Civilização Planetária, a Civilização das consciências verdadeiramente livres.   

NOTAS:

[1] Para não haver confusão em relação ao que hoje se entende por vidente, esta palavra deve ser entendida aqui como aquele que por intenso esforço, renúncia, disciplina, treinamento oculto, sujeição ao Eu Superior e serviço à grande Causa da evolução humana,  desenvolveu os seus poderes internos latentes no mais elevado grau. 

[2] “The Secret Doctrine”, H.P.B., Theosophy Co., Los Angeles, Vol.I, p.272; “A Doutrina Secreta”, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.I, p.304.

27 de Outubro de 2009

O trabalho de Josef Hoflehner








26 de Outubro de 2009

Decrescimento econômico. Loucura?


Um texto de Adriano Violante


"A sociedade hodierna baseia-se em crescimento econômico, crescendo a riqueza dos países podem-se oferecer empregos para os jovens que estão entrando no mercado de trabalho, construir hospitais, escolas e estradas. Até diz-se que se podem eliminar a pobreza. Este discurso vem, naturalmente, dos economistas e advogados. São eles que dirigem os países (aconselhando políticos), as empresas e os municípios.
Quando se defende idéias de crescer menos ou de decrescer, se procura um horizonte mais distante, que possa contemplar assuntos estranhos à economia, como a ecologia, por exemplo, como faz a Sociedade Brasileira de Economia Ecológica – ECOECO em que traz abordagens de um economista pouco conhecido como Nicholas Georgescu-Roegen. Em 1976, este romeno publicou um texto sobre entropia, ecologia e economia cujo título era o decrescimento. Nesta época ele advogava que a economia não pode crescer indefinidamente, pois se baseia em aspectos mecânicos – para a indústria funcionar necessita de matéria prima e energia. Tanto uma quanto a outra podem se esgotar ou, depois de usada, se encontrar em estado tal que não sejam aproveitáveis.
O crescimento também deve ser definido. O crescimento populacional já exerce demasiada pressão sobre os recursos ambientais; o crescimento do PIB não leva em conta a questão social e ambiental e o modelo energético baseado no carvão e no petróleo não suporta um crescimento mundial de 3% ao ano ou como o chinês do início do século XX, de cerca de 10%, por muito tempo.
O decrescimento aqui apresentado não é sinônimo de recessão ou crescimento negativo da economia, é uma necessidade para que não se tenha que tomar medidas mais drásticas num futuro próximo. Ainda não se pode provar, com 100% de certeza, que aja uma causa direta entre os problemas ambientais como o aquecimento global ou a subida do nível do mar e o crescimento econômico. Pode-se argumentar, entretanto, que o planeta não suporta o modo de vida dos povos dos países desenvolvidos nem muito menos pedir para que os outros países não queiram ter este tipo de padrão de vida.
Um decrescimento desejado, sem ser obrigado, trará mais empregos em energias alternativas, nos setores de serviços, embora possa oferecer menos horas trabalhadas, reduzir gastos com o setor militar e nos deslocamentos de pessoas e mercadorias. Dirigentes e políticos querem crescer, desenvolver, e a limitação dos recursos é assunto que não devem querer ouvir nem debater, pois vão contra os interesses dos eleitores, dos religiosos e dos empresários.
Alguns economistas mais progressistas, entendedores do assunto, procuram explicar a situação como se fosse uma lógica do mercado. Se se aplicar o dinheiro a ser gasto com as causas ambientais num banco, durante alguns anos, ter-se-á um montante justificável da inércia atual. Com esta lógica economicista se esperam grandes catástrofes num futuro próximo, maiores até que as enchentes, secas e furacões que assolam o planeta hoje."


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23 de Outubro de 2009

350!

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Declaração Budista Sobre as Mudanças no Clima




Declaração Budista sobre as mudanças do clima a ser apresentada em Dezembro de 2009, em Copenhaga, na “Conferência sobre o Clima” promovida pelas Nações Unidas.


Texto original em inglês no website 


(Tradução para português do Brasil feita por Alexander Silva)


A hora de Atuar é Agora
Declaração Budista sobre as mudanças Climáticas

"Hoje vivemos em uma época de grande crise, Diante do maior desafio que a humanidade já enfrentou: as conseqüências ecológicas do nosso próprio carma coletivo. O consenso científico é avassalador: a atividade humana está provocando a degradação ambiental em escala planetária. O aquecimento global, em particular, está acontecendo muito mais rápido do que o anteriormente previsto, mais evidente no Pólo Norte. Desde centenas de milhares de anos, o Oceano Ártico tem sido coberto por uma área de gelo marinho tão grande como a Austrália, mas agora o gelo está derretendo rapidamente. Em 2007, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) previu que o Ártico poderá estar livre de gelo marinho no verão de 2100. Agora está evidente que isto poderá  ocorrer dentro de uma década ou duas. A vasta camada de gelo da Groenlândia também está derretendo mais rapidamente do que o esperado. O nível do mar subirá neste século pelo menos um metro, o suficiente para inundar muitas cidades costeiras vitais ao cultivo de arroz, como o delta do Mekong, no Vietnã.

Geleiras em todo o mundo estão derretendo rapidamente. Se a atual política econômica continuar, as geleiras do platô tibetano, fonte de grandes rios que fornecem água para bilhões de pessoas na Ásia, desaparecerá dentro de 30 anos. A severa seca e a quebra de safra já está afetando a Austrália e o norte da China. Relatórios do IPCC, das Nações Unidas, União Européia e da União Internacional para a Conservação da Natureza, concordam que, sem uma mudança coletiva de direção, diminuindo o fornecimento de água, alimentos e outros recursos, podem criar condições de fome, batalhas por recursos e migração em massa em meados do século, talvez em 2030 de acordo com o assessor chefe científico do Reino Unido.

O aquecimento global tem um papel importante em outras crises ecológicas, incluindo a perda de muitas plantas e espécies animais que partilham conosco esta Terra. Relatórios oceanógrafos indicam que metade do carbono liberado pela queima de combustíveis fósseis foi absorvido pelos oceanos, aumentando a sua acidez em torno de 30%. A acidificação interrompe a calcificação de conchas e recifes de coral, bem como ameaça ao crescimento do plâncton, a principal fonte da cadeia alimentar para a maioria da vida marinha.

Biólogos importantes e relatórios da ONU concordam que o "business-as-usual" irá conduzir a metade de todas as espécies na terra a extinção ainda neste século. Coletivamente, estamos violando na maior escala possível o primeiro preceito "não prejudicar os seres vivos". E nós não podemos prever as conseqüências biológicas a vida humana, quando tantas espécies que invisivelmente contribuem para o nosso próprio bem-estar desaparecerem do planeta.

Muitos cientistas concluíram que a sobrevivência da civilização humana está em jogo. Chegamos a um momento crítico em nossa evolução biológica e social. Nunca houve um momento mais importante na história para trazer os recursos do Budismo de trabalhar a favor de todos os seres vivos. As quatro nobres verdades constituem a base para o diagnóstico de nossa situação atual e formulação de orientações adequadas, porque as ameaças e as catástrofes que enfrentamos, em última análise derivam da mente humana e, portanto, é necessário exigir mudanças profundas em nossas mentes. Se o sofrimento pessoal resulta do desejo e da ignorância dos três venenos da ganância, má vontade e ilusão, o mesmo se aplica ao sofrimento que nos aflige em uma escala coletiva. Nosso emergência ecológica é uma versão maior do eterno dilema humano. Como indivíduos e como espécie, sofremos de um sentimento de "eu" que se sente desconectado, não só de outras pessoas, mas da própria Terra. Como Thich Nhat Hanh, disse: "Estamos aqui para despertar da ilusão da nossa separação." Temos de acordar e perceber que a Terra é nossa mãe, assim como nossa casa, e neste caso o cordão umbilical que nos liga a ela não pode ser cortado. Quando a Terra fica doente, ficamos doentes, porque somos parte dela.

Nossas atuais relações econômicas e tecnológicas com o resto da biosfera são insustentáveis. Para sobreviver as duras transições à frente, os nossos estilos de vida e expectativas devem mudar. Isto envolve novos hábitos, bem como novos valores. O ensinamento budista de que a saúde geral do indivíduo e da sociedade depende do bem-estar interior, e não apenas dos indicadores econômicos, nos ajuda a determinar as mudanças pessoais e sociais, temos de fazer.

Individualmente temos que adotar comportamentos que aumentem o conhecimento ecológico cotidiano e reduzam nossas emissões de carbono. Aqueles de nós que fazemos parte das economias avançadas precisamos reformar nossas casas e locais de trabalho para gerar eficiência energética; números menores nos termostatos no inverno, e maiores no verão, uso de lâmpadas e equipamentos de alta eficiência (econômicos); desligar aparelhos elétricos não utilizados; conduzir os automóveis o mais eficientemente possível, e reduzir o consumo de carne em favor de uma dieta vegetal saudável e ambientalmente amigável.

Estas atividades pessoais não serão por si só suficientes para evitar a calamidade futura. Temos também que fazer mudanças institucionais, tecnológicas e econômicas. Temos de "descarbonizar" os nossos sistemas de energia o mais rapidamente possível através da substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia, que são ilimitadas, benignas e harmoniosas com a natureza. Especialmente existe a necessidade de travar a construção de novas usinas a carvão, uma vez que o carvão é de longe a mais poluente e perigosa fonte de carbono atmosférico. Sabiamente utilizada, a energia eólica, energia solar, energia das marés e a energia geotérmica podem fornecer toda a eletricidade que necessitamos, sem prejudicar a biosfera. Um quarto das emissões de carbono do mundo são resultado do desmatamento, é preciso inverter a destruição das florestas, especialmente o cinturão de florestas tropicais onde a maioria das espécies de plantas e animais vivem.

Recentemente tornou-se evidente que mudanças significativas também são necessárias na forma como nosso sistema econômico está estruturado. O aquecimento global está intimamente relacionado com as quantidades gigantescas de energia consumida por nossas indústrias para fornecer os níveis de consumo que muitos de nós aprendemos a esperar. De uma perspectiva budista, uma economia sadia e sustentável seria regida pelo princípio da suficiência: a chave para a felicidade é o contentamento antes do que uma abundância maior de mercadorias. A compulsão para consumir mais e mais é uma expressão do desejo, a causa do sofrimento apontada por Buda.

Em vez de uma economia que enfatiza o lucro e exige crescimento perpétuo para evitar o colapso, é preciso avançar em conjunto para uma economia que proporcionará um nível de vida satisfatório para todos, permitindo-nos desenvolver nosso potencial (inclusive espiritual), em plena harmonia com a biosfera que sustenta e alimenta a todos os seres, incluindo as nossas gerações futuras. Se os líderes políticos são incapazes de reconhecer a urgência da nossa crise global, ou não querem colocar a longo prazo o bem da humanidade, acima do benefício de curto prazo das empresas de combustível fóssil, talvez seja necessário desafiá-los com campanhas sustentadas pela ação cidadã.

Dr. James Hansen da NASA e outros climatologistas definiram recentemente metas precisas, necessárias para evitar que atinjamos o ponto de ruptura catastrófico do aquecimento global. "Para a civilização humana ser sustentável o nível seguro de gás carbônico na atmosfera não deve passar de 350 partes por milhão (ppm). Este objetivo foi aprovado pelo Dalai Lama, junto com o Prêmio Nobel e também outros cientistas de renome. Nossa situação é particularmente preocupante na medida em que o nível atual já é de 387 ppm, e tem aumentado em 2 ppm por ano. Somos desafiados não apenas a reduzir as emissões de carbono, mas também em remover grandes quantidades de gás carbônico já presente na atmosfera.

Como signatários desta declaração de princípios budistas, reconhecemos o desafio urgente de mudança climática. Juntamo-nos com o Dalai Lama a endossar o objetivo de 350 ppm. De acordo com os ensinamentos budistas nós aceitamos nossa responsabilidade individual e coletiva de fazer o que pudermos para alcançar esta meta, incluindo (mas não limitados a) as respostas pessoais e sociais acima descritos.

Temos uma pequena janela de oportunidade para atuar, para preservar a humanidade de um desastre iminente e para auxiliar a sobrevivência das mais diversas e belas formas da vida na Terra. As gerações futuras, e as outras espécies que compartilham a biosfera conosco não têm voz para pedir a nossa compaixão, sabedoria e liderança. Devemos ouvir o seu silêncio. Nós devemos ser a sua voz, e também agir em seu nome."

22 de Outubro de 2009

Pare, Escute e Olhe

Documentário "Pare, Escute, Olhe" realizado por Jorge Pelicano sobre a defesa da linha ferróviária do Tua em Trás-os-Montes. 


Ficar de braços cruzados é ser cúmplice da destruição do nosso património natural e cultural e condenar as nossas populações ao abandono, fechando os olhos à ganância e ao total falta de responsabilidade da classe política e dos grupos económicos.