25 de Dezembro de 2009

Se Cristo Voltar Neste Natal








O Que Ocorrerá Se Subitamente Surgir Em
Público Um Grande Instrutor da Humanidade? 

Carlos Cardoso Aveline
  
Os rótulos não substituem a realidade. A sabedoria divina flutua acima das aparências visíveis, dos nomes próprios e das imagens personalizadas. O conhecimento universal é como um círculo infinito cujo centro está em todas as partes: por isso, a essência de cada religião ou filosofia contém a essência de todas as outras.

Quando vemos em profundidade a figura de Jesus Cristo, reconhecemos que ele simboliza no Ocidente os sábios e os instrutores da humanidade.  Krishna, Buddha, Pitágoras, Platão, Lao-tzu, Confúcio e Cristo ensinam a mesma sabedoria universal.

Os grandes sábios jamais afastaram-se da humanidade, mas o contato com eles  não é verbal e visual. Os seres humanos recebem sua ajuda e sua inspiração em planos superiores de consciência, acima do que é percebido pelos cinco sentidos e pelo nível “pessoal”, denso e primário, da atividade do cérebro. O contato a ser buscado é com a sabedoria em si mesma e não com a personalidade deste ou daquele instrutor.  

Qual é, então, o verdadeiro significado da idéia de uma volta visível de Jesus? 

A idéia simboliza para a alma o retorno dos sábios ao convívio humano, em um plano consciente. É a volta da sabedoria, e a reconquista da paz e do equilíbrio nos assuntos humanos visíveis. Não há por que personalizar indevidamente o retorno. Trata-se de recuperar a paz individual e coletiva, e não de pedir autógrafo ou favores pessoais a algum artista famoso recém-chegado do céu.   

“Quando ocorrerá a volta?” perguntam-se as pessoas de boa vontade.

Vale a pena examinar a questão. Suponhamos que, de fato, um dos grandes instrutores da humanidade aceite a tarefa de retomar uma presença reconhecida e consciente junto à comunidade humana atual.  Adotemos, também, a hipótese de que, para a ocasião, ele decida aproveitar o clima de confraternização das festas de final de ano, retomando o contato de um modo que sua presença física possa ser facilmente reconhecida pelas pessoas de boa vontade como a presença do mesmo Jesus do Novo Testamento.   

Ele se tornará visível em Nova Iorque, entrando na sede das Nações Unidas? Ele conversará ali, a portas fechadas, com o secretário-geral?  Ou ele surgirá curando doentes entre os povos mais pobres e humildes da África? Talvez o instrutor sagrado mande um e-mail para os principais chefes de Estado? Quais as conseqüências políticas, sociais e econômicas do seu reaparecimento? Estas perguntas práticas são incômodas.  A aparição pública entre nós de um grande ser, um mestre sagrado, poderia colocar em cheque os hábitos pessoais e os apegos de muitos. Abalaria instituições e estruturas sociais. 

Para investigar o que ocorreria de fato se Jesus reaparecesse na próxima véspera de Natal, o primeiro passo consiste em resgatar um texto clássico. O escritor russo Fiódor Dostoievski descreveu em 1880 como teria sido o retorno físico de Cristo durante o século 16. 

Ao escrever o relato, intitulado “O Grande Inquisidor”, Dostoievsky pode ter sido inspirado desde níveis superiores de consciência. Um Raja-Iogue dos Himalaias não só pediu que o trecho fosse traduzido do russo e publicado em inglês por Helena Blavatsky  em 1881, mas também escreveu, em uma carta para um discípulo leigo:

“A sugestão de traduzir ‘O Grande Inquisidor’ é minha; porque seu autor, sobre quem já pesava a mão da Morte enquanto escrevia, deu a descrição mais convincente e mais verídica jamais escrita da Sociedade de Jesus. Está contida ali uma grande lição para muitos, e mesmo você poderá tirar proveito dela.” [1]

A narrativa faz parte da obra “Os Irmãos Karamázovi”, e nela Dostoievsky descreve a aparição do instrutor divino entre os habitantes de Sevilha, na Espanha.  Na época, a Inquisição estava no auge.  O Vaticano prendia, torturava e matava em nome de Jesus. O Inquisidor tinha poder absoluto na Espanha.  Supostos hereges eram queimados vivos todos os dias em fogueiras públicas, “para maior glória de Deus”, conforme o lema dos implacáveis jesuítas. Como seria, nestas condições, a volta do Cristo? 

(...)



A balança...




"Embora a realidade das alterações climáticas não esteja em dúvida, eu tenho de ser honesto, acho que a nossa capacidade de acção colectiva está agora em dúvida e pende sobre a balança."

Barack Obama


Ler:
Artigo de Christopher Flavin, presidente do World Watch Institute

22 de Dezembro de 2009

O Natal de Ontem e o Natal de Hoje




As Origens Pagãs e a Realidade
Actual da Maior Festa do Cristianismo

Helena Petrovna Blavatsky

Texto do website www.filosofiaesoterica.com

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Incisivo em sua crítica ao mero ritualismo vazio e na
defesa da verdadeira compaixão,   o texto a seguir tem
grande utilidade para os cidadãos da atual sociedade de
consumo,  e constitui um clássico da literatura teosófica.

Ao final, uma breve nota dos editores relaciona a
mensagem  deste texto com a sabedoria popular brasileira.
A lição maior é que o verdadeiro Natal ocorre sobretudo
no templo sagrado que há dentro de cada coração humano.

O artigo foi escrito para a edição de dezembro
de 1879 da revista indiana  “The Theosophist”, e por
esse motivo a senhora Blavatsky  se refere, no
primeiro parágrafo, a “nossos assinantes ocidentais”.

(Os Editores)

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Estamos atingindo aquela época do ano em que todo o mundo cristão se prepara para celebrar a mais notável das suas solenidades – o nascimento do Fundador da sua religião. Quando este texto chegar aos nossos assinantes ocidentais haverá festividades e alegria em todas as casas. No Noroeste da  Europa e na América do Norte haverá azevinho e heras decorando cada casa, e as igrejas estarão  enfeitadas com sempre-vivas; um costume que vem das práticas antigas dos Druidas,  “para que os espíritos silvestres possam congregar-se nas sempre-vivas,  e permanecer ao abrigo da geada até que haja menos frio”.  Nos países católicos, grandes multidões convergem para as igrejas durante  a noite da “véspera de Natal”, para saudar imagens de cera da divina Criança, e de sua mãe Virgem, em sua vestimenta de “Mãe Celestial”.

Para uma mente analítica, esta exuberância de rico ouro e de rendas, de cetim e veludo enfeitados com pérolas, e o berço coberto de jóias, parecem de fato paradoxais.  Quando pensamos  na manjedoura pobre, velha e suja da estalagem judaica na qual, se devemos  acreditar no Evangelho, o futuro “salvador” foi colocado ao nascer por falta de um abrigo melhor, não podemos deixar de suspeitar que, diante do  olhar deslumbrado do devoto ingénuo, o estábulo de Belém desaparece completamente. Para dizê-lo de modo mais suave, esta pomposa exibição não combina muito bem com os sentimentos democráticos e com o desprezo  verdadeiramente divino por riquezas materiais, que o “Filho do Homem”  sentia  – ele que não tinha “onde descansar sua cabeça”.

Isso só torna mais difícil para o cristão comum compreender a afirmação explícita de que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um homem rico entrar no reino dos céus”  –;  a menos que a frase seja vista como uma ameaça puramente retórica e sem valor real. A Igreja romana agiu com inteligência ao proibir severamente os membros das suas paróquias de ler ou interpretar os Evangelhos por si mesmos,  e ao deixar, enquanto isso foi possível, que o Livro proclamasse as suas verdades em Latim  –  “a voz que prega no deserto”.   Nisso, a igreja apenas seguiu  a sabedoria das idades – a sabedoria dos antigos arianos, que também é “justificada pelos seus filhos”; porque, assim como o devoto moderno do hinduísmo não entende uma palavra de sânscrito, nem o  parsi uma sílaba do Zend [1], assim também para o católico comum  não há diferença alguma entre um texto em Latim e os símbolos hieroglíficos do Egito antigo. O resultado é que todos os três – o Alto Sacerdote Hindu, o Mobed zoroastrista e o Pontífice Católico Romano,  obtêm oportunidades ilimitadas para produzir novas doutrinas religiosas a partir das suas próprias fantasias,  para benefício das suas respectivas igrejas. 

Para dar as boas-vindas a este grande dia, os sinos são tocados em sinal de felicidade à meia-noite  por toda Inglaterra [2] e pelo continente.  Na França e na Itália, depois da celebração da missa em igrejas magnificamente decoradas, “é costume que os participantes tenham acesso a uma recepção (reveillon), para que possam enfrentar melhor o cansaço da noite”, afirma um livro sobre os cerimoniais da igreja papal.  Esta noite de jejum cristão nos lembra do Sivaratree dos seguidores do deus Shiva – o grande dia de tristeza e jejum, no décimo-primeiro mês do ano hindu. A diferença é que entre os seguidores de Shiva  a longa vigília nocturna é precedida e seguida de um jejum estrito e rígido.  Não há reveillons ou soluções de meio-termo entre eles. É verdade que eles não passam de “pagãos” iníquos, e portanto o seu caminho até a salvação deve ser dez vezes mais difícil.


Embora seja agora universalmente celebrado pelas nações cristãs como o aniversário de nascimento de Jesus, o dia 25 de Dezembro não era aceito como tal, inicialmente. O Natal, a mais móvel das datas de celebrações cristãs, era frequentemente confundido com a Epifania [3] e celebrado nos meses de Abril e Maio.  Como nunca  houve qualquer registro ou prova autêntica de sua identificação, seja em história secular ou eclesiástica, a selecção daquele dia permaneceu sendo opcional por longo tempo, e foi  só no século IV que, estimulado por Cyril de Jerusalém, o papa (Julio I)  ordenou aos bispos que fizessem uma investigação e chegassem finalmente a algum acordo  quanto à data presumível do nascimento de Cristo.   A escolha deles recaiu sobre 25 de Dezembro –,  e desde  então  tem sido comprovado que a escolha foi muito infeliz! Foi Dupuis, seguido por Volney, que desferiu os primeiros tiros contra esta data. Eles comprovaram, com dados astronómicos muito claros,  que durante períodos incalculáveis antes da era cristã quase todos os povos antigos tinham celebrado o nascimento dos seus Deuses do Sol  exactamente nesta data.

“Dupuis mostra que o signo celeste da VIRGEM  E  A CRIANÇA já existia vários milhares de anos antes de Cristo” – escreve Higgins em sua obra Anacalypsis.  Já que Dupuis, Volney e Higgins foram considerados pela posteridade como infiéis e inimigos da Cristandade, parece ser correcto citar, nesta questão, as confissões do bispo cristão de Ratisbone, “o homem mais sábio que a idade média produziu”,  o dominicano Albertus Magnus. “O signo da Virgem celestial  se eleva acima do horizonte no momento que nós fixamos como o  do nascimento do Senhor Jesus Cristo”,  diz ele, em “Recherches historiques sur Falaise, par Langevin prêtre”.  Assim,  Adónis, Baco, Osíris, Apolo, etc., todos nasceram em 25 de dezembro. O Natal ocorre exactamente no momento do solstício de Inverno [4] ; os dias são então mais curtos, e a Escuridão está mais presente que nunca na face da terra.  Todos os deuses  solares nascem anualmente naquela época; porque a partir daquele momento a sua Luz afasta cada vez mais a escuridão, a cada novo dia, e o poder do Sol começa a aumentar.


Seja como for, as festividades de Natal que foram celebradas pelos cristãos durante quase 15 séculos tiveram um carácter particularmente pagão.  E isso não é tudo: mesmo as actuais cerimónias da igreja dificilmente podem escapar da crítica de que foram copiadas quase literalmente dos mistérios do Egito e da Grécia, celebrados em homenagem a Osíris e Horus, Apolo e Baco.  Tanto Ísis como Ceres eram chamadas de “Virgens Sagradas”, e um BEBÊ DIVINO pode ser encontrado em cada religião “pagã”. Vamos agora traçar dois retratos do Feliz Natal.  Um descreve os “bons e velhos tempos”. O outro descreve o estado actual da adoração cristã.

Desde os primeiros  dias do seu estabelecimento como Natal, o dia foi visto ao mesmo tempo como uma comemoração sagrada e e uma festividade da maior alegria: ela era dedicada igualmente à devoção e à diversão desregrada. “Entre as festanças da temporada de Natal estavam as chamadas  festas de tolos e asnos, as saturnálias grotescas que eram chamadas de ‘liberdades de Dezembro’, nas quais tudo o que fosse sério era parodiado, a ordem da sociedade era revertida, e o seu sentido de decência ridicularizado” – diz um compilador de crónicas antigas. “Durante a idade média, isso era celebrado através do  espectáculo alegre e fantástico dos mistérios dramáticos, realizado por personagens em máscaras grotescas e roupas extravagantes. O show normalmente representava uma criança em um berço, rodeada pela Virgem Maria e por São José, por cabeças de touros, querubins, por Magos do Oriente (os Mobed de antigamente), e múltiplos ornamentos.”  O costume de entoar cânticos durante o Natal, chamados de Hinos de Natal, visava relembrar as canções dos pastores na Natividade. “Os bispos e o clero frequentemente se juntavam à população em tais cânticos, e as canções eram acompanhadas  por danças e pela música de tambores, guitarras, violinos e órgãos....”   Podemos acrescentar que até os tempos actuais, durante os dias que antecedem o Natal, tais mistérios estão sendo encenados, com bonecos e marionetes, no sul da Rússia, na Polónia e na Galiza; e são conhecidos como Kalidowki.  Na Itália, menestréis da Calábria descem das suas montanhas até Nápoles e Roma, e lotam as capelas da Virgem-Mãe, homenageando-a com sua música animada.

Na Inglaterra, os festejos costumavam começar na véspera de Natal e iam frequentemente até a Candelária (2 de fevereiro) [5] , sendo que todos os dias eram dias santos até a décima-segunda noite (6 de Janeiro).  Nas casas de grandes nobres era nomeado um “senhor do desregramento” ou “abade da não-razão”, cujo dever era cumprir o papel de palhaço.  “A despensa ficava cheia de frangos, galinhas, perus, gansos, patos, carne bovina, carne de carneiro, carne de porco, tortas, pudins, nozes, ameixas, açúcar e mel.”   (. . . .)  “Um fogo brilhante, feito de pedaços grandes de lenha, o principal dos quais era chamado de ‘lenha de Natal’ e era capaz  de queimar até a véspera da Candelária, era mantido em ambiente seguro; e a abundância era compartilhada pelos arrendatários do senhor,  em meio a música, encantamentos, quebra-cabeças, hotcockels [6], brincadeira do tolo, flores cabeça-de-dragão, piadas, risos, desafios com perguntas e respostas, prendas penhoradas nos jogos, e danças.”

Em nossos tempos modernos,  os bispos e o clero já não se somam à população que canta e dança, e as “festas de tolos e asnos” são ensaiadas mais na sagrada privacidade do que diante de  perigosos observadores de olhos atentos. No entanto as festas de comida e bebida são preservadas em todo o mundo cristão; e sem dúvida ocorrem mais mortes súbitas provocadas por gula e intemperança durante os feriados de Natal e a Páscoa do que em qualquer outra época do ano.   A  cada ano que passa, a adoração cristã se limita, cada vez mais, a uma falsa ostentação.  A ausência de coração em tais  fingimentos tem sido denunciada inúmeras vezes, mas pensamos que isso nunca foi feito com um toque de realismo mais emocionante do que em uma encantadora história-de-sonhos  publicada no “New York Herald” perto do último Natal [7] .  Um homem idoso, que presidia uma reunião pública, disse que aproveitaria a oportunidade para relatar uma visão que ele havia tido na noite anterior. “Ele pensou que estava de pé no púlpito da mais bela e magnífica catedral que ele jamais havia visto.  Diante dele estava o sacerdote ou pastor da igreja,  e a seu lado estava um anjo com uma tabuleta e um lápis na mão, cuja missão era registrar cada acção devocional ou oração que ocorresse em sua presença e se elevasse como uma oferenda aceitável até o trono de Deus. Cada banco da igreja estava cheio de devotos de ambos os sexos. A mais sublime música que ele jamais ouvira encheu o ar  com sua melodia. Todos os belos serviços ritualísticos da igreja, inclusive um sermão  insuperavelmente eloquente de um hábil sacerdote tinham já ocorrido,  e no entanto o anjo registrador não fez anotação alguma em sua tabuleta!  Ao final, a congregação foi dispensada pelo pastor com uma longa oração de belas frases, seguida por uma bendição, e no entanto o anjo não  fez um só gesto!”

“Observado ainda pelo anjo, o orador saiu pela porta da igreja que ficava atrás da congregação ricamente vestida. Uma pobre mulher esfarrapada permanecia na sarjeta da calçada, estendendo sua mão pálida e desnutrida e silenciosamente pedindo esmolas.  Enquanto passavam por ali os devotos ricamente vestidos, eles se desviavam da pobre Madalena.  As damas mantinham à distância as suas sedas, os seus mantos enfeitados de jóias, para que não pudessem ser contaminados pelo toque da mão dela.”

“Neste momento um marinheiro bêbado aproximou-se oscilando pelo outro lado da calçada.  Quando ele chegou à altura  da pobre menina abandonada, ele cambaleou atravessando a rua até onde ela estava e, tirando do bolso algumas moedas de pequeno valor, colocou-as na mão dela, enquanto dizia:

‘Aqui, pobre miserável abandonada, pegue isto!’ 

Uma radiância celeste agora iluminou a face do anjo registrador, que imediatamente anotou o ato de simpatia e compaixão do marinheiro em sua tabuleta, e afastou-se considerando-o um sincero sacrifício a Deus.”

Alguém dirá que esta é uma materialização da história bíblica do julgamento de uma mulher culpada de adultério. Pode ser que sim; no entanto, a história descreve magistralmente a situação actual da nossa sociedade cristã.

De acordo com a tradição, na véspera do Natal, os bois podem ser sempre encontrados repousando sobre seus joelhos, como se estivessem em oração e devoção, e “havia um famoso espinheiro no pátio  do mosteiro de Glastonbury, que sempre dava botões de flor no dia 24 e florescia no dia 25 de Dezembro; fato que, considerando que o dia fora escolhido ao azar pelos Padres da igreja,  e que o calendário foi alterado do sistema antigo para o novo, mostra uma perspicácia notável,  tanto por parte dos bois como por parte do vegetal!  Há também uma crença tradicional, preservada até nós por Olaus, o arcebispo de Upsala, de que, no festival do Natal,  “os homens que vivem nas regiões frias do Norte são súbita e estranhamente metamorfoseados em lobos; e que uma  gigantesca multidão deles se encontra em um lugar escolhido e expressa tamanha raiva da humanidade que esta sofre mais com os seus ataques do que jamais poderia sofrer com ataques dos lobos naturais.”
Metaforicamente falando, este parece ser o caso com os homens, e mais do que nunca agora, e especialmente nas nações cristãs. Não há necessidade de esperar pela véspera de Natal para ver nações inteiras transformadas em “feras selvagens” –  especialmente em tempos de guerra.

(Theosophist, Dezembro 1879)


NOTAS:
[1] Parsis são os  seguidores do zoroastrismo na Índia. “Zend” é a versão da “Avesta” –   a principal escritura sagrada dos parsis –  no idioma persa clássico, o “pálavi”,  falado nos séculos  três a nove da era cristã.  A escritura persa é chamada hoje de “Zend-Avesta”. (Nota do Tradutor)
[2] A Índia era colónia inglesa na época. (N. do Trad. )
[3] A epifania ou Dia de Reis é comemorada hoje em seis de Janeiro. (N. do Trad.)
[4]  Inverno -- no hemisfério norte. (N. do Trad.)
[5]  Candelária; festa da Purificação da Virgem. No Brasil, também é o dia de Iemanjá, a deusa das águas. (N. do Trad.)
[6] Hotcockels - jogo infantil tradicional em que uma criança, com os olhos cobertos, deve adivinhar quem bateu nela.  (N. do Trad.)
[7] Último Natal  -- isto é, na época do Natal de 1878. (N. do Trad.)

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Nota.
A história contada por H.P.B., sobre a mulher que mendigava  à porta da igreja luxuosa,  coincide com uma narrativa bem-humorada que hoje faz parte da sabedoria popular brasileira.
Um homem pobre, velho,  negro, desdentado  e maltrapilho é barrado, sem explicações,  na igreja de um bairro de luxo de uma grande capital. Surpreso,  sem poder entender o motivo, ele volta para seu barraco. Ele faz uma oração a Deus e pergunta, como quem deseja ver o mistério resolvido de uma vez por todas:
“Explique-me,  Senhor ; como é que o Senhor permite que um sujeito sincero como eu seja barrado naquela igreja, tão grande,  tão bela e que se diz cristã?”
E Deus responde: 
“Não se preocupe, meu filho.  Já  faz  muito tempo que eu também não consigo entrar naquele prédio.” 

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21 de Dezembro de 2009

O Caminho do Meio

17 de Dezembro de 2009

Tribos das margens do rio OMO




Uma cultura milenar

O rio Omo, em África, atravessa a Etiópia, o Sudão e o Quénia.

Foi nas suas margens que os arqueólogos encontraram os "Homens de Kibish" um ancestral de 120 mil anos.

Nesta região africana habitam ainda algumas tribos cujo modo de vida se assemelha à pré-história: Dassanesh, Mursi, Hamar, Karo, Bume e Beshadar.

No vale do Rift, onde se encontra a grande fenda africana que separa geograficamente os negros dos árabes, é uma região vulcânica que fornece uma grande diversidade de pigmentos com uma grande variação de cores.Com estes pigmentos, alguns raros, as tribos do rio Omo praticam a sua arte.

Para a cultura Ocidental, estes seres são verdadeiros génios da pintura, pois os seus traços lembram muito a arte contemporânea de Picasso, Miró, Paul Klee e Tapies.

Estas pessoas pintam o seu corpo à velocidade de um "action paint" de Jackson Pollock.

Em poucos minutos, com uma rapidez impressionante, decoram o peito, seios, pernas e pés.

Não usam pincéis, apenas uma habilidade fantástica com a ponta dos dedos.

Trata-se de uma arte ancestral praticada por todos da tribo: idosos, adultos, jovens e crianças.

A aprendizagem ocorre apenas com a simples observação.

Este povo integra-se perfeitamente na natureza, fazendo parte dela e sendo como ela.

A arte deste povo é praticada por ele mesmo. Não há explicação nem teorias.

Por isso, é arte no mais alto grau de pureza.

Cada indivíduo é motivado apenas pelo desejo. O desejo de ser belo, de seduzir e de exteriorizar o prazer.

Mas, o progresso precisa de energia eléctrica.

Há um projecto de construção de uma barragem no rio Omo para uma central hidroeléctrica que vai gerar energia para Adis Abeba, capital da Etiópia.

Infelizmente, o governo daquele país não está nada preocupado com as possíveis consequências nefastas desta barragem para estas tribos.

O rio terá uma redução para um quinto do seu tamanho e irá acabar com as planícies alagadas que são essenciais para a agricultura tribal destes habitantes.

Esta cultura pura, intacta, deve estar, infelizmente, com os dias contados.

Um povo milenar pode-se tornar miserável em questão de dias.

No futuro talvez tenhamos apenas fotografias de Hans Sylvester deste povo fascinante, e da sua riqueza artística, para podermos mostrar às gerações vindouras.

A nova geração da Etiópia terá imensa energia eléctrica para poder apreciar toda esta beleza num computador.

Esperemos que os governantes deste país, ainda muito longe do desenvolvimento, tenham a capacidade para se aperceber que a cultura e as tradições de um povo fazem parte do bem-estar de toda uma nação que se quer desenvolvida e próspera.

Fonte: http://autopoeta.wordpress.com/

Abaixo-assinado organizado com o objectivo de evitar que isso aconteça.

Para colaborar clique aqui:

http://www.thepetitionsite.com/1/save-lake-turkana—stop-the-damming-of-the-omo-river

O declinio do gelo Ártico - ultima actualização.


15 de Dezembro de 2009

O Trabalho de Rarindra Prakarsa





14 de Dezembro de 2009

Discurso do Prémio Nobel da Paz - Barack Obama


O escritor José Saramago escreveu no dia 9 de Outubro algo no seu "Caderno de Saramago" com o qual estamos completamente de acordo. Por isso mesmo, fazemos aqui a transcrição dessas poucas linhas.

"Falou-se muito de Barack Obama neste blog, alguns dirão que demasiado. Quando uma esperança nasce há que saudá-la conforme o seu merecimento, e este parecia não ter limites.
É possível que comece a dizer-se que o Prémio Nobel da Paz foi prematuro, mas não o é se o tomarmos como um investimento…
Graças a ele talvez Obama ganhe ainda maior consciência de quantos o necessitamos."

De facto, não demorou mesmo muito para que as pequenas mentalidades começassem a dizer que o Prémio Nobel foi imerecido, prematuro, etc. Chegou-se mesmo ao ponto de se afirmar que o Comité do Nobel se tinha vendido ao imperialismo americano, entre muitos outros devaneios. Enfim, o mundo está cheio de anões, que não conseguem enxergar o muito que está para além do muro do seu quintal. Possuídos pela sua visão estreita, pelo seu egoísmo e auto-importância, invejam e conspiram para que todas as esperanças sinceras não se concretizem...

E se tinham chovido críticas à entrega do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama, ainda mais críticas surgiram ao seu discurso de aceitação. Estamos em crer que, muitos daqueles que teceram os mais absurdos comentários, não leram sequer o referido discurso. É fácil comentar quando a responsabilidade é mínima, ou quando não se consegue discernir a diferença entre atitudes, princípios e acções. Fácil mesmo é colocar tudo no mesmo saco, dando comodamente os mesmos rótulos de sempre. Afinal, assim se esconde a incapacidade de ver mais profundo e mais longe.

Porque a humanidade precisa que olhemos o mundo com todo o realismo que nos for possível,  com todo o pragmatismo que os assuntos verdadeiramente importantes merecem, com toda a esperança que o momento invoca, transcrevemos aqui o importante discurso que Barack Obama proferiu na cerimónia de recebimento do Prémio Nobel da Paz, em Oslo, no passado dia 10.


Julgamos valer a pena a leitura atenta das suas palavras, porque estamos em crer que, no futuro, este discurso será olhado como um documento histórico de grande valor. No discurso, Obama oferece-nos uma lição de história, de bom-senso e de visão profunda dos problemas imensamente complexos que a humanidade enfrenta, colocando a questão da guerra justa na perspectiva da imperfeição humana e como uma medida excepcional contra forças que espalham a violência indiscriminadamente e em grande escala. Ao mesmo tempo mostra-nos que todo o verdadeiro estadista tenta ir mais além, procurando criar as condições para que uma paz mais duradoura seja possível..


Discurso do Prémio
Nobel da Paz Barack Obama

[10 de Dezembro de 2009, Oslo]


Suas majestades, suas altezas, distintos membros do comité norueguês do Nobel, cidadãos dos Estados Unidos e cidadãos do mundo:

Recebo esta honraria com profunda gratidão e grande humildade. Trata-se de um prémio que fala às nossas mais elevadas aspirações e dispõe que, apesar de todas as crueldades e dificuldades de nosso mundo, não somos simples prisioneiros do destino. Nossas acções fazem diferença, e podem fazer com que a História se incline na direcção da justiça.

E no entanto seria leviano de minha parte se eu não reconhecesse a considerável controvérsia gerada por sua generosa decisão. Em parte isso aconteceu porque estou no começo, e não no final, de meus esforços no cenário mundial. Comparadas às de alguns dos gigantes históricos que receberam o prémio - Schweitzer e King, Marshall e Mandela -, minhas realizações são modestas. E há também os homens e mulheres de todo o mundo que foram encarcerados e agredidos em sua busca pela justiça; aqueles que batalham em organizações humanitárias para minorar os sofrimentos; os milhões de pessoas que passam despercebidas mas cujos actos silenciosos de coragem e compaixão inspiram até mesmo os mais cínicos. Não posso discutir com aqueles que consideram que esses homens e mulheres - alguns conhecidos e outros obscuros para todos a não ser aqueles a quem ajudam - mereçam muito mais que eu a honraria que ora recebo.

Mas talvez a mais profunda questão quanto à minha escolha para este prémio seja minha posição como comandante-em-chefe de um país que está envolvido em duas guerras. Uma dessas guerras está se encerrando. A outra é um conflito que os Estados Unidos não procuraram, e no qual contamos com a participação de 40 outros países - entre os quais a Noruega - em um esforço por defender a nós, e todas as nações, contra novos ataques.

Ainda assim, estamos em guerra, e sou responsável pelo envio de milhares de jovens norte-americanos ao combate em terras distantes. Alguns deles matarão. Outros serão mortos. E por isso venho a vocês conhecendo o custo de um conflito armado, e repleto de questões difíceis sobre o relacionamento entre guerra e paz e nosso esforço por substituir a primeira pela segunda.

Não são questões novas. A guerra, em uma ou outra forma, surgiu junto com os primeiros seres humanos. Na alvorada da História, sua moralidade não era questionada; tratava-se de um simples fato, como as secas ou doenças - a forma pela qual primeiro tribos e depois civilizações buscavam o poder e resolviam suas diferenças.

Com o passar do tempo, e o surgimento de códigos legais que buscavam controlar a violência no seio dos grupos, filósofos, líderes religiosos e estadistas começaram a tentar regulamentar o poder destrutivo da guerra. Emergiu o conceito de "guerra justa", que sugeria que a guerra só era justificada caso atendesse a determinadas precondições: que fosse empreendida apenas como último recurso; que a força usada fosse proporcional e que sempre que possível os civis fossem poupados da violência.

Pela maior parte da História, esse conceito de guerra foi raramente respeitado. A capacidade dos seres humanos para conceber maneiras novas de matarem uns aos outros se provou inexaurível, bem como nossa capacidade de excluir de nossa clemência aqueles que têm aparência diferença da nossa ou oram a um Deus diferente. Guerras entre exércitos deram lugar a guerras entre nações - guerras totais nas quais a distinção entre civis e combatentes se perdeu. Em um período de 30 anos, conflitos como esses assolaram a Europa por duas vezes. E embora seja difícil conceber uma causa mais justa que a derrota do Terceiro Reich e das potências do Eixo, a Segunda Guerra Mundial foi um conflito no qual o número total de civis mortos excedeu o de soldados caídos no campo de batalha.

Depois de tamanha destruição, e com o advento da guerra nuclear, tornou-se claro a vitoriosos e derrotados igualmente que o mundo precisava de instituições capazes de prevenir uma nova guerra mundial. E assim, um quarto de século depois que os Estados Unidos rejeitaram a Liga das Nações - a ideia pela qual Woodrow Wilson recebeu este prémio -, foram eles que lideraram o mundo na construção de uma estrutura de preservação da paz: o Plano Marshall e as Nações Unidas, mecanismos para orientar as práticas de guerra, tratados de protecção aos direitos humanos, prevenção de genocídios e restrição às armas mais perigosas.

De muitas maneiras, esses esforços encontraram sucesso. Mas ainda assim guerras terríveis foram travadas, e atrocidades cometidas. Mas não surgiu uma Terceira Guerra Mundial. A guerra fria terminou com multidões entusiásticas derrubando um muro. O comércio aproximou boa parte do mundo.

Biliões de pessoas conseguiram escapar à pobreza. Os ideais de liberdade, autodeterminação, igualdade e do Estado de Direito conquistaram avanços, ainda que hesitantes. Somos os herdeiros da firmeza e da visão de gerações passadas, e esse é um legado do qual meu país merecidamente se orgulha.

Agora, passada uma década do novo século, a velha estrutura está vacilando devido ao peso de novas ameaças. O mundo talvez não viva mais o medo de um conflito entre duas superpotências nucleares, mas a proliferação pode tornar mais sério o risco de uma catástrofe. O terrorismo é uma táctica usada há muito; no entanto, a tecnologia moderna permite que um punhado de homens pequenos, mas dotados de raiva descomunal, assassinem inocentes em escala horripilante.

Além disso, as guerras entre países cada vez mais deram lugar a guerras entre nações. A ressurgência de conflitos étnicos ou sectários; o crescimento de movimento secessionistas, insurgências e Estados em colapso causaram caos infindo nas vidas dos civis. Nas guerras de hoje, morrem muito mais civis que soldados; as sementes de futuros conflitos são plantadas; economias são arruinadas; sociedades civis dilaceradas; refugiados criados em profusão; e as crianças portam as marcas.

Não trago hoje comigo uma solução definitiva para os problemas da guerra. O que sei é que enfrentar esses desafios requererá a mesma visão, trabalho árduo e persistência exibidos pelos homens e mulheres que agiram com tamanha audácia décadas atrás. E requererá que pensemos de novas maneiras sobre o conceito de guerra justa e sobre o imperativo de uma paz justa.

Devemos principiar reconhecendo a dura verdade de que não será possível erradicar os conflitos violentos em curto prazo. Haverá momentos em que nações - agindo individualmente ou em alianças - considerarão o uso da força não apenas necessário como moralmente justificado.

Faço essa afirmação tendo em mente aquilo que Martin Luther King declarou nesta mesma cerimónia, anos atrás: "A violência jamais traz paz permanente; não resolve problemas sociais, e apenas cria problemas novos e ainda mais complicados". Como alguém que só pode ocupar sua actual posição em consequência directa do trabalho empreendido por King, sou prova viva da força moral da não violência. Sei que não há nada de fraco - nada de passivo - nada de ingénuo - no credo e nas vidas de Gandhi e King.

Mas como chefe de Estado cujo dever jurado é proteger e defender minha nação, não posso me deixar orientar apenas por esses exemplos. Encaro o mundo tal qual é, e não poderia me manter ocioso diante de ameaças ao povo norte-americano. Porque eis uma verdade: o mal persiste no mundo. Um movimento não violento não teria sido capaz de deter os exércitos de Hitler. Negociações não são capazes de convencer os líderes da Al Qaeda a baixar as armas. Dizer que a força é ocasionalmente necessária não representa um apelo ao cinismo, mas um reconhecimento da História, das imperfeições do homem e dos limites da razão.

Menciono esse ponto porque em muitos países existe uma profunda ambivalência quanto às acções militares hoje em curso, não importa qual seja a causa. Há momentos em que essa ambivalência vem acompanhada por suspeitas instintivas quanto aos Estados Unidos, a única superpotência militar do planeta.

No entanto, o mundo precisa lembrar que não foram apenas as instituições internacionais - e não só os tratados e declarações - que geraram a estabilidade existente no mundo pós-Segunda Guerra Mundial: os Estados Unidos ajudaram a sustentar a segurança mundial por mais de seis décadas, com a força de nossas armas e o sangue de nossos cidadãos. O serviço e sacrifício de nossos militares, homens e mulheres, ajudou a promover a paz e a prosperidade da Alemanha à Coreia, e permitiu que a democracia fincasse raízes em lugares como os Balcãs.

Nós arcamos com esse fardo não porque desejemos impor nossa vontade; o fizemos em nome de um auto-interesse esclarecido, porque desejamos um futuro melhor para nossos filhos e netos, e acreditamos que suas vidas serão melhores caso os filhos e netos de outros povos possam viver em liberdade e prosperidade.

Por isso, sim, os instrumentos da guerra têm um papel a desempenhar na preservação da paz. Mas essa verdade precisa coexistir com outra: a de que, não importa suas justificativas legítimas, guerras significam tragédia humana. A coragem e o sacrifício dos soldados são gloriosos, e expressam devoção ao país, à causa e aos companheiros de armas. Mas a guerra em si jamais é gloriosa, e não devemos alardear que seja.

Assim, parte de nosso desafio é reconciliar duas verdades aparentemente inconciliáveis - a de que a guerra é ocasionalmente necessária e a de que a guerra é em certo nível a expressão de sentimentos humanos. Em termos concretos, devemos dirigir nossos esforços à tarefa que o presidente Kennedy propôs, muito tempo atrás: "Que nos concentremos", ele disse, "em uma paz mais prática, mais atingível, baseada não em uma repentina mudança da natureza humana e sim na evolução gradual das instituições humanas".

(...)




Ler também:

12 de Dezembro de 2009

Não ao Desemprego





"A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.


Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?


Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.


E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?


Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?


O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos foruns públicos e nas consciências. Não é exagero. Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimiento, quer dizer, o seu trabalho.


Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.


Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não toleremos ser suas vítimas."


José Saramago


Texto retirado do website http://caderno.josesaramago.org/

9 de Dezembro de 2009

Telepatia, a Comunicação Silenciosa


Como Ocorre a Comunhão das Ideias,
no Oceano dos Pensamentos Humanos

Texto de Carlos Cardoso Aveline,
publicado no website www.filosofiaesoterica.com

“Durante uma reunião, você tem uma ideia e no mesmo instante alguém fala a todos aquilo que você acaba de pensar. Você pode supor que é coincidência. Em outra ocasião, você pensa em alguém e em seguida toca o telefone. Você atende e escuta a voz de quem? Da pessoa em quem pensava. Você pode forçar-se a concluir que é um acaso. Mas um dia você acorda lembrando de um amigo de quem não tem notícias há muitos anos e, horas depois, recebe uma carta dele. Ou você chega a uma reunião no momento exacto em que seu próprio nome está sendo mencionado.

Embora sejam comuns na vida diária, nenhum destes fatos é uma simples coincidência. Eles constituem exemplos concretos de uma das funções mais fascinantes da consciência humana: a telepatia, a percepção ou transmissão de sentimentos e pensamentos a distância.   

O termo “telepatia” é feito de duas palavras gregas; “tele” (“à distância”), e “pathos” (sentimento, sofrimento).  O significado literal é “sentir a uma distância”. O termo engloba, portanto, mais do que a mera transmissão de pensamentos lógicos e definidos. Inclui todos os tipos de contacto entre duas ou mais mentes, quando este contacto transcende a ajuda dos cinco sentidos.

O fenómeno é mais comum do que geralmente se pensa, mas acontece quase sempre de modo semi-consciente ou  inconsciente. Se todos soubessem que a telepatia se processa o tempo todo e está presente nos vários aspectos da vida diária, teriam mais cuidado não só com o que dizem, mas também com o que pensam e sentem em relação a cada pessoa e situação. A afinidade magnética que possibilita a telepatia pode ser harmoniosa ou desarmoniosa. As trocas telepáticas são fonte de sofrimento ou de bênçãos. Nem tudo que é similar se harmoniza. Nem tudo que é diferente se complementa. Para evitar problemas, a melhor coisa a fazer é deixar de pensar de maneira errada e aprender a pensar correctamente.     

Em certas condições, e especialmente quando fazemos silêncio em nossas mentes, somos capazes de ouvir pensamentos. Não escutamos palavras, mas percebemos as ideias e os sentimentos íntimos dos outros. Os pensamentos se transmitem de modo natural. A telepatia ocorre em silêncio e ao lado da comunicação verbal. Ela se apóia na palavra como seu veículo e instrumento. É ela que dá um sentido mais profundo ao que uma pessoa fala ou escuta.  A telepatia re-escreve um velho ditado popular e afirma:

“O que os olhos não vêem, o coração sente”.

Uma família, um grupo de amigos e uma escola de filosofia são de certo modo campos telepáticos. São territórios subtis habitados por grupos de pensamentos e sentimentos. A telepatia inconsciente também é responsável em grande parte pelo fenómeno dos hábitos colectivos e das opiniões que passam a ser consenso. E ela explica o fenómeno da liderança. (…)”

[Continua]


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A seguir, um vídeo apresentando uma das várias investigações científicas sobre fenómenos telepáticos, conduzidas pelo biólogo Rupert Sheldrake.